Em seu livro A terra inabitável, David Wallace-Wells
previu que o século XXII seria o “século do inferno”. Talvez ele
já tenha começado.
É um mundo que provavelmente exacerbará as
desigualdades do presente. Hoje, 1 bilhão de pessoas já não têm
recursos suficientes para comer e estão vivendo precariamente,
mas agora elas já se defrontam com um futuro ecológico que
investe contra elas com mais secas, mais inundações, mais
furacões, mais conflitos. Aproxima-se com velocidade a era do
apartheid climático, em que os que têm podem se proteger atrás
de muros altos, enquanto os que não têm lutam para sobreviver
além deles.
Dentro de cinquenta, cem, quinhentos anos, é provável
que ainda haja seres humanos vivendo, trabalhando, amando e
sonhando pelos continentes do planeta Terra. E a vida que eles
levarão será profundamente influenciada pelo modo como
agimos hoje, pelas consequências da história que eles vão herdar.
Somos seus ancestrais, e as escolhas que fazemos — políticas,
ambientais, culturais, tecnológicas — irão inevitavelmente
moldar suas perspectivas.
Sabemos o que está em risco. Então, o que está nos
impedindo de desviar nosso olhar do aqui e agora para ter uma
visão mais estendida a respeito do futuro da humanidade?
Roman Krznaric. Como ser um bom ancestral. Rio de Janeiro: Zahar, 2021 (com adaptações).