Manu, S. Paulo, 6-VIII-33
Estou fazendo week-end..., dando um balanço geral em
tudo quanto tenho que responder, livros a agradecer, papelada pra
distribuir nos lugares, etc., etc. Seus comentários sobre o meu “O
desespera” quase que me desesperaram. Não é justo você dizer
que pra mim é atual falar numa coisa, como se eu não me
rendesse a razões plausíveis. Me rendo sim senhor. Confesso com
lealdade que jamais refleti seriamente sobre isso, isto é,
seriamente, refleti, sim, mas não refleti longamente. Mas a
seriedade está nisto: emprego flexões pronominais iniciando a
frase, coisa que literariamente é erro. Me parece etc. Devo
empregar também literariamente “O desespera” porque o caso é
absolutamente o mesmo. Se trata de uma ilação, é verdade, mas
ilação absolutamente lógica sobre o ponto de vista filosófico, e
tirada da índole brasileira de falar, o que a torna, além de
filosoficamente certa, psicologicamente admissível. Diz você que
não se trata dum fato de linguagem brasileira. Poderei estar de
acordo. Mas isso se dá simplesmente porque o povo, pelo menos
o povo rural que é a grande e pura fonte, ignora o pronominal, e
diz, por exemplo, “fazer isso” e “dizer isso” “desespera ele” por
fazê-lo e dizê-lo. Você tem o argumento dos alfabetizados da
cidade. Sim, mas estes, desde que ponham um reparo na fala, já
não dizem “me parece” também, porque o professor da escola
primária proibia. Mas se dizem, sem querer, “me parece” por
que, então, não dizem “o desespera”?
Ciao, com abraço.
Mário de Andrade. Cartas a Manuel Bandeira, 2001, p. 222-3 (com adaptações)