Partindo da constatação de que psicanálise
e ética são disciplinas distintas, mas que há entre
elas um importante campo de intersecção há uma
grande diversidade de modelos metapsicológicos
existentes na psicanálise que produziu não só
diferenças na abordagem teórica da questão da ética
e da consciência moral, mas também nos objetivos
clínicos de cada uma dessas correntes, por meio de
um esforço de sistematização do discurso de ambas.
Sobre os autores que determinaram a corrente
psicanalítica e a intersecção da ética, é INCORRETO
afirmar que:
A O sujeito, para Lacan, se define pela estrutura
simbólica, sendo efeito da linguagem. O sujeito é
dito barrado na medida em que a linguagem não
dá conta de simbolizar tudo. Essa impossibilidade
de simbolização total coloca a falta como inerente e
estrutural ao sujeito. Por mais que o sujeito encontre
objetos que lhe pareçam responder ao seu desejo
– isso será por um momento extremamente fugaz
–, haverá sempre um resto não satisfeito, uma falta
extremamente importante para o sujeito, pois é o que
o mantém vivo e se mexendo sempre em busca de
algo que o complete. Nesse sentido, Lacan (1959-
60) afirma que “tudo o que existe vive senão na falta-a-ser”, o que ele introduz de novo no campo da ética
é a atenção à barreira que existe em relação à Coisa
e ao desejo, a inacessibilidade do objeto enquanto
objeto de gozo. A partir da discussão acerca da
inacessibilidade da Coisa, Lacan conclui que o
“Bem Supremo”, tão almejado na ética filosófica e
pela sociedade em geral, não existe, e que nenhum
outro bem pode equivaler à Coisa, a qual, além de
proibida, é perdida.
B Para Klein as relações éticas e a consciência moral
surgem de uma necessidade interna e pulsional,
revelando um pensamento fortemente inatista. Nesse
sentido, a principal implicação clínica da reflexão de
Klein acerca da ética e da moral é a importância
atribuída à passagem da posição depressiva, que,
além de ser parte do desenvolvimento do psiquismo,
é objetivo do processo terapêutico e está intimamente
implicado no surgimento da ‘consciência moral
propriamente dita’.
C Segundo Wilhelm Reich a relação entre clínica e
moral pode ser reconhecida, sobretudo por meio do
processo de autoconhecimento, resultado esperável
para qualquer análise. Para ele, há uma mistura
problemática entre o que é demandado de mim pelo
outro e o que eu mesmo demando de mim. Nesse
sentido, o autoconhecimento significa não apenas
se descobrir como agente de valorização moral,
mas também distinguir quais são seus próprios
imperativos e quais são os dos outros. Segundo esse
autor, reconhecermo-nos como agentes da moral
e formadores de imperativos são dinamicamente
tão relevantes para a personalidade e para o
direcionamento de nossa ação quanto reconhecer os
objetivos de nossas pulsões e das funções do ego.
D Para Freud (1939), a ética se justifica pela
necessidade de se delimitar os direitos da sociedade
contra o indivíduo, os direitos do indivíduo contra a
sociedade e os direitos dos indivíduos uns contra os
outros. É verdade que Freud (1912-13) admite que
o mito do assassinato do pai primevo não precisa
ter sido um acontecimento real, pois o desejo e
o temor de matá-lo (no Édipo) já são suficientes
para que a consciência moral no indivíduo seja
instalada. Entretanto, o que importa destacar aqui
é que a capacidade de pensamento antecipa as
consequências do ato, dispensando sua realização;
contudo, o que está em jogo é uma consideração a
respeito do outro externo e real, uma consideração
que não é de todo desinteressada, pois já se
reconhece o quanto o outro é importante para a
sobrevivência de si mesmo.