[...] Temos no Brasil gramáticas tradicionais de boa qualidade –
como a de Celso Cunha e Lindley Cintra; dispomos do
excelente dicionário Houaiss, certamente um dos melhores da
língua; realizamos, no início dos anos 1970, um extenso
levantamento da norma culta falada e, na década de 1980, um
extenso levantamento da norma culta escrita no Brasil desde
1950. Nada desse acervo de instrumentos normativos teve até
agora, porém, repercussão no modo como se representa a
língua no senso comum, no modo como se prepara o professor
ou no modo como se ensina o português. Nem mesmo a
presença dos linguistas nos debates sobre o ensino do
português neste último quarto de século conseguiu alterar
substancialmente esse quadro. E essa situação está a exigir
uma criteriosa reflexão. Nós, linguistas, temos de reconhecer
que, em geral, temos tido pouco sucesso nas nossas relações
com a escola. Talvez isso seja consequência de não termos tido
sucesso nas nossas relações com a sociedade em geral. Não
são de pequena monta os conflitos que estão hoje instaurados
entre o saber acadêmico e um certo senso comum. Até há
pouco tempo nós, linguistas, não tínhamos nos apercebido do
tamanho e da gravidade desses conflitos.
FARACO, C. A. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo:
Parábola Editorial, 2008.