Leia o fragmento do capítulo trigésimo segundo – Olhos
de Ressaca de Dom Casmurro.
“— Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos
de cigana, oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era
obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar
assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que
era, se nunca os viras; eu nada achei extraordinário; a cor e a
doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação
creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era
um pretexto para mirá-los mais de perto, com meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isso atribuo que entrassem a ficar
crescidos, crescidos e sombrios, como tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética
para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode
imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que
eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o
que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido
misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como
a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser
arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos
braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa
buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava
e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.(...)”
(ASSIS, Machado. Dom Casmurro.
São Paulo: Abril Educação, 1978. p. 218-20)
O narrador caracteriza os olhos de Capitu como “olhos de
ressaca” porque é uma mulher