Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca,
longe. Num dia de apuro recorrera ao porco magro que não
queria engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas
do Natal: matara-o antes do tempo e fora vendê-lo na cidade.
Mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e
atrapalhara-o. Fabiano fingira-se desentendido: não compreendia
nada, era bruto. Como o outro lhe explicasse que, para vender
o porco, devia pagar imposto, tentara convencê-lo de que ali não
havia porco, havia quartos de porco, pedaços de carne. O agente
se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem,
Deus o livrasse de história com o governo. Julgava que podia
dispor de seus troços. Não entendia de imposto. — Um bruto,
está percebendo? Supunha que o cevado era dele. Agora se
a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Pois ia voltar para
casa e comer a carne. Podia comer a carne? Podia ou não podia?
O funcionário batera o pé agastado e Fabiano se desculpara, o chapéu de couro na mão, o espinhaço curvo: — Quem foi que
disse que eu ia brigar? O melhor é a gente acabar com isso.
Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra rua,
escondido. Mas, atracado pelo cobrador, gemera no imposto e
na multa. Daquele dia em diante não criara mais porcos. Era
perigoso criá-los.
Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1977, p. 100-101.