Texto 19A1
Em uma teoria da compreensão de texto, o primeiro
aspecto importante é a noção de língua que se adota. Alguns
manuais escolares concebem a língua simplesmente como um
código ou um sistema de sinais autônomo, totalmente
transparente, sem história, e fora da realidade social dos falantes.
Mas a língua é muito mais do que um sistema de estruturas
fonológicas, sintáticas e lexicais. A rigor, a língua não é sequer
uma estrutura; ela é estruturada simultaneamente em vários
planos, seja o fonológico, sintático, semântico e cognitivo no
processo de enunciação. A língua é um fenômeno cultural,
histórico, social e cognitivo que varia ao longo do tempo e de
acordo com os falantes: ela se manifesta no uso e é sensível
ao uso.
Portanto, a língua é uma atividade constitutiva com a qual
podemos construir sentidos; é uma forma cognitiva com a qual
podemos expressar nossos sentimentos, ideias, ações e
representar o mundo; é uma forma de ação pela qual podemos
interagir com nossos semelhantes. Em consequência, a língua se
manifesta nos processos discursivos, no nível da enunciação,
concretizando-se nos usos textuais mais diversos. É importante
não confundir a língua com o discurso.
Nessa perspectiva, a língua é mais do que um simples
instrumento de comunicação; mais do que um código ou uma
estrutura. Enquanto atividade, ela é indeterminada sob o ponto de
vista semântico e sintático. Por isso, as significações e os
sentidos textuais e discursivos não podem estar aprisionados no
interior dos textos pelas estruturas linguísticas. A língua é opaca,
não é totalmente transparente, podendo ser ambígua, polissêmica,
de modo que os textos podem ter mais de um sentido, e o
equívoco nas atividades discursivas é um fato comum.
Na realidade, um texto bem-sucedido é aquele que
consegue dizer o suficiente para ser bem-entendido, supondo
apenas aquilo que é possível esperar como sabido pelo ouvinte ou
leitor. É interessante notar que, se o autor ou falante de um texto
diz uma parte e supõe outra parte como de responsabilidade do
leitor ou ouvinte, então a atividade de produção de sentidos (ou
de compreensão de texto) é sempre uma atividade de coautoria.
Isto quer dizer que os sentidos são parcialmente produzidos pelo
texto e parcialmente completados pelo leitor.
Ao lado da noção de língua, é necessário ter uma noção de
texto. A escola trata o texto como um produto acabado e que
funciona como uma cesta natalina, de onde a gente tira coisas. O
texto não é um produto nem um simples artefato pronto; ele é um
processo. Assim, não sendo um produto acabado, objetivo, como
uma espécie de depósito de informações, mas sendo um processo,
o texto se acha em permanente elaboração e reelaboração ao
longo de sua história e ao longo das diversas recepções pelos
diversos leitores. Em suma, texto é uma proposta de sentido e ele
se acha aberto a várias alternativas de compreensão.
Luiz Antônio Marcuschi. Exercícios de compreensão ou copiação nos manuais de ensino de língua?
Em Aberto, Brasília, ano 16, n.º 69, jan.-mar./1996 (com adaptações).