Leia o texto que segue:
"Nascido nas ruas, criou-se nas quebradas das
periferias. Sobrevive às dificuldades porque nunca anda
sozinho. Traz consigo a consciência da força da
coletividade. Com criatividade indócil, chegou ao
mainstream sem tirar o pé do underground . Entrou nas
casas e playlists da classe média alta, mas permanece
periférico. Aos 50 anos, seu nome é rap , sigla em inglês
para Ritmo e Poesia. Segue na luta conquistando
espaços e travando batalhas − de MCs e slammers
contra o preconceito, desigualdade, racismo e
machismo, dando a letra através da oralidade e do
corpo. Descobriu a performance como aliada na
comunicação global. Ocupou as páginas dos livros e as
teses e dissertações acadêmicas. O rap é a parte mais
importante e literária do hip-hop, cultura tradicional
urbana concebida nos anos 1970, nas periferias de Nova
York, nos Estados Unidos, tendo a música como
principal manifestação artística e na palavra sua fonte de
longevidade. Palavra acompanhada pela paisagem
sonora dos samples (trechos sonoros de uma música
que são reutilizados) criados pelo DJ, diante do cenário
colorido do grafite, embalando os b-boys no
breakdancing.
'O rap positivou identidades periféricas, ressignificou a
própria ideia de periferia, reconfigurou radicalmente os
padrões estéticos, de modo que a MPB deixa de ser o
principal modelo de compreensão, avaliação e juízo
metodológico. Talvez o rap seja a mudança mais
impactante na música brasileira nos últimos 30 anos",
opina o doutor em Literatura Brasileira pela Universidade
de São Paulo (USP), professor de literatura da
Universidade de Pernambuco (UPE), Acauam Oliveira.
Seu objeto de estudo do doutorado foi o maior grupo de
rap do Brasil, o Racionais MC's, formado em 1988 por
KL Jay, Ice Blue, Edi Rock e Mano Brown.
Recentemente, o grupo recebeu o título de doutor
honoris causa concedido pela Universidade de Campinas
(Unicamp), em São Paulo. Um dos álbuns da banda,
Sobrevivendo no inferno (1997), figura na lista de leituras
obrigatórias para o vestibular de uma das universidades
mais importantes do país.
"A concessão desses títulos é um reconhecimento do
quanto o grupo é importante no combate ao racismo e às
desigualdades dentro de um país que confronta
conceitos como cordialidade e democracia com aspectos
coloniais e autoritários. Acho que a inserção do disco
Sobrevivendo no inferno colocado em paralelo às obras
literárias canônicas que vêm sendo indicadas para os
vestibulares marca o reconhecimento da mudança de
perfil dos estudantes − principalmente depois das cotas −
e da própria universidade e de seus professores,
querendo desenvolver as problemáticas sobre raça e
desigualdade. Isso não quer dizer que, antes, não
existiam pesquisadores pensando o rap , em particular, e
o hip-hop, no geral. Mas as pesquisas não estavam muito conectadas 20 anos atrás. Agora eu acho que tem
havido um projeto político de entender o hip-hop como
possibilidade de pensar outras formas de conhecimento",
declara Daniela Vieira dos Santos, professora de
Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL),
no Paraná, e coordenadora do projeto A nova condição
do rap no Brasil.
(Disponível:
https://www.suplementopernambuco.com.br/acervo/pernambuco/89-rep
ortagem/3202-no-ritmo-e-nas-rimas-da-literatura-oral.html. Acesso em
11 nov. 2024. Adaptado.)
A partir da leitura do texto anterior, pode-se inferir que:
I.O rap e o hip-hop colocam-se como possibilidade de
pensar, junto com os/as estudantes, outras formas de
conhecimento que não apenas as canônicas, legitimadas
e autorizadas pelas elites intelectuais.
II.O rap, enquanto linguagem verbal musicada e
linguagem corporal, e o grafite, enquanto linguagem
não-verbal, são excelentes exemplos de arte que traz à
tona a periferia e a denúncia do racismo e das
desigualdades, podendo ser trabalhados na escola, mas
não no ensino de Língua Portuguesa, pois essas
estruturas composicionais não são conteúdo dessa área.
III.O rap positiva identidades periféricas, ressignifica a
ideia de periferia e reconfigura os padrões estéticos,
colocando-se também como meio para o trabalho
interdisciplinar na escola, o que possibilita um
aprendizado mais holístico dos/das estudantes,
enquanto cidadãos e cidadãs em formação, ao invés de
uma formação por blocos disciplinares sem interconexão.
É correto o que se afirma em: