SÁ DE MIRANDA, Francisco de. Trova. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos
textos. 33. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.
Texto 2
Minha senhora de mim
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
HORTA, Maria Teresa. Cem poemas (antologia pessoal): 22 inéditos.
Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.
Em Minha senhora de mim, Maria Teresa Horta efetua uma releitura da tradição medieval
portuguesa, dialogando diretamente com o poema de Francisco de Sá de Miranda, em cuja
elaboração ainda se percebem elementos que antecedem as tendências estéticas do século
XVI.
Sobre a relação temática entre os textos, considere as seguintes afirmações:
I. O desacordo interior se mantém como cerne dos dois poemas, mas assume
nuances diferentes: enquanto no texto 1, o conflito é representado de modo mais
geral - e, portanto, pretensamente universalizante -, no texto 2, a indicação dos
aspectos a que se associa a tensão o torna mais particular.
II. A situação exposta nos dois poemas mostra-se, ao mesmo tempo, pessoal e social,
representando a condição dual inerente ao ser humano − dividido entre aparência e
essência, entre corpo material e alma −, para metaforizar o embate de formas
antitéticas de se conceber a existência.
III. O sujeito poético de cada texto adota atitude equivalente em face da contenda
interna, considerando-a danosa a seu equilíbrio emocional por não encontrar meios
para atenuá-la ou solucioná-la, dada a impossibilidade de esquivar-se de um
enfrentamento direto ou de negar o que o aflige.