Texto 4
Os romanos, quando ocupavam uma nova província
conquistada, garantiam que os postos administrativos, burocráticos e militares fossem preenchidos, na
medida do possível, por cidadãos da classe “urbana”.
Mas o imenso contingente de agricultores, comerciantes de ninharias e de bens fundamentais, artesãos,
prostitutas, cozinheiros etc., que passavam, afinal, a
constituir a massa da nova população romana no local
era indubitavelmente composto por pessoas sem
educação, com poucos meios. Gente das camadas
populares, que falava latim vulgar. (…) Eram os trabalhadores braçais que construíam os famosos aquedutos e estradas dos romanos, e não os engenheiros que
os projetavam, os que levavam para os cantos mais
remotos do Império o latim de verdade.
Linguisticamente, somos todos filhos das camadas
mais humildes dos falantes de latim, língua que é rica
e complexa exatamente por ter todo esse repertório
de formas, níveis, estilos e recursos. Como qualquer
grande idioma de uma sociedade complexa, o latim
era muitos latins; e o latim da maioria não era exatamente o dos gramáticos.
GALINDO, Caetano W. – Latim em pó – Um passeio pela formação
do nosso português, Cia da Letras, S. Paulo, 2022, p. 81.