Texto:
"Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se
passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas
passadas de fazer balancê, de se remexerem dos
lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em
trechos diversos; uns com outros acho que nem se
misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo
coisas de rasa importância. Tem horas antigas que
ficaram muito mais perto da gente do que outras de
recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice.
Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não
como um filme em que a vida acontece no tempo, uma
coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa
conexão que lhe dá sentido, princípio, meio e fim, mas
como um álbum de retratos, cada um completo em si
mesmo, cada um contendo o sentido inteiro."
(Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, apud Rubem Alves.
Na Morada das Palavras. Campinas: Papirus, 2003, p. 139.)
No trecho acima, o narrador reflete sobre a dificuldade
de contar histórias, negando que isso se deva ao tempo
e sugerindo uma alternativa para narrar memórias.
Considere o texto e analise as afirmativas a seguir:
I.O uso da palavra não no início do texto demonstra
coesão, ao conectar-se à ideia de que a dificuldade de
narrar não está relacionada ao tempo passado.
II.A metáfora do "álbum de retratos" é uma forma de
intertextualidade, pois remete a uma estrutura narrativa
fragmentada, em oposição à ordem linear de um "filme".
III.O uso de então introduz uma conclusão lógica,
contribuindo para a coerência ao relacionar as reflexões
anteriores com a proposta de narrar memórias de forma
fragmentada.
Está correto o que se afirma em: