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Das mentiras sinceras
1.° Entrou no 464, Maracanã-Leblon, e sentou-se ao lado de uma velha. Sentiu-lhe o cheiro de carne antiga e ficou com nojo. Mansamente, a velhinha falou:
2.° – Você também vai ficar velho, Carlos Alberto!
3.° Assustado, olhou para a velha sem entender nada. Antes que pudesse esboçar um movimento, ela saltou do ônibus e desapareceu no turbilhão da Barata Ribeiro.
4.° Começou a ficar paranóico. Cismou que as pessoas podiam ler seus pensamentos. A velha os lera – e ainda adivinhara seu nome! E agora? E se outras pessoas tivessem tal dom? Se a mulher tivesse, estava ferrado. Nos momentos de alcova, pensava ora nas carnes duras da vizinha adolescente, ora na dureza da vida de desempregado.
5.° As entrevistas de emprego se tornaram uma tortura ainda maior do que já são. Enquanto lhe perguntavam sobre suas aptidões pelo cargo, Carlos cismava que o entrevistador sabia que era mentira que tinha noções de inglês.
6.° Sua vida social ficou seriamente abalada. Nunca dantes imaginara que a vida social era, ela mesma, uma mentira. “Não, não tenho dinheiro para te emprestar...” “Seu filho é uma gracinha!” E se, com um simples olhar, o amigo adivinhasse a terrível verdade?
7.° Meses depois do acontecido, tomava uma cerveja com o irmão mais novo no Amarelinho. Contou-lhe seus temores, envergonhado. Júnior deu risada.
8.° – Por isso que tu tá magro assim. Ninguém vive feliz se não puder mentir. Mas ninguém lê o pensamento dos outros não, pô. Eu aposto que a velha te conhecia.
9.° – Não conhece! Juro! Nunca vi aquela velha na minha vida!
10.° Júnior era policial civil e garantiu que iria investigar. Carlos, sem esperanças, nem na Polícia Civil nem em nada, respondeu que aguardaria.
11.° Dias depois, atendeu ao telefonema do irmão. Recusou-se a falar por telefone, porque a mulher estava perto e ouviria, não suas palavras, mas seus pensamentos! Júnior, a contragosto, aceitou encontrá-lo no Amarelinho.
12.° – Já descobri tudo – o policial foi logo dizendo ao se sentar. – A velha era essa aqui? – perguntou, jogando uma foto na mesa.
13.° – Era! – exclamou o desempregado, exultante. – E aí? É alguma paranormal famosa?
14.° – É a tia Aparecida, seu burro. Pensei em quantas velhinhas te conhecem e poderiam morar em Copa e lembrei dela. Tu não falou que ela saltou na Barata Ribeiro?
15.° – Saltou, saltou, sim! Mas que tia é essa?
16.° – É uma prima distante da nossa mãe, do Espírito Santo. Mudou agora para o Rio. Ela estava no último Natal. Você estava tão bêbado que não deve lembrar dela. Eu lembrei porque ela tinha um cheiro esquisito, mesmo, até comentei com a minha mulher depois da ceia. Com certeza ela te reconheceu e sacou pela sua cara que você achou a mesma coisa que eu – riu gostosamente.
17.° Carlos Alberto respirou aliviado. Pagou os chopes e caminhou sem destino pelas ruas do Centro. O admirável mundo das mentiras, o único possível, se lhe abria de novo.
18.° À noite, enquanto via novela com a mulher, suspirou pela vizinha das carnes duras.
Assinale a alternativa cuja palavra está corretamente acentuada.