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Serena
Serena tinha oito anos. Quando os pais de Serena começavam a brigar na mesa, ela fechava os olhos e tentava pensar em outra coisa. Pensava na sua casa de bonecas. Os pais de Serena brigavam na mesa porque era a única hora do dia em que ficavam cara a cara. No resto do dia ia cada um para o seu lado, queixar-se do outro.
Na mesa, não paravam de brigar. Serena fechava os olhos.
— Passa a cenoura? — disse Serena, interrompendo uma frase da mãe.
— O quê? — disse a mãe de Serena, rispidamente.
— Passa a cenoura?
— Ora, não comece você também! — disse a mãe de Serena, e voltou a xingar o marido.
Serena saiu da mesa. Foi para o seu quarto e fechou a porta. Ajoelhou-se na frente da sua casa de bonecas. A casa tinha tudo que uma casa de verdade tem, em miniatura. Moveizinhos. Tapetinhos. Um telefonezinho. Em volta da mesinha da sala de jantar da casa de bonecas estavam sentados três bonequinhos. Um pai, uma mãe e uma menina. Serena enfiou a mão na casa e tirou a menina da mesa.
O pai e a mãe de Serena nem notaram que Serena não estava mais na mesa. Continuavam brigando. Foi só quando virou-se para ordenar que Serena comesse a cenoura que a mãe viu que ela não estava mais ali. E viu outra coisa. Viu que uma parede inteira da casa tinha simplesmente desaparecido.
O pai de Serena viu a expressão de horror no rosto da mulher e também virou o rosto, e viu que a parede tinha desaparecido, e viu que do lado de fora da casa tinha um monstro, um monstro gigantesco vestido de criança, uma criança gigantesca, maior que a casa. E só quando o pai e a mãe de Serena pularam da mesa e se achataram contra a outra parede da sala, apavorados, se deram conta de que a criança era a Serena. Mas a Serena era maior do que eles, maior que a casa!
— Meu Deus! — gritou a mãe de Serena.
— Calma, calma — disse o marido.
— Calma o quê? Faz alguma coisa! Telefona para a polícia. Telefona para os bombeiros!
O pai de Serena correu para o telefone e tentou em vão fazer uma ligação.
— Este telefone. É... É de brinquedo!
— Serena! — gritou a mãe. — O que que...
— Sshhh! — fez Serena de fora da casa, e o deslocamento de ar quase derrubou os dois.
Serena enfiou a mão na casa, pegou a mãe e a colocou no seu lugar na mesa. Depois pegou o pai e fez a mesma coisa. Mandou que eles comessem. Em silêncio. Sorrindo, mas em silêncio. Só então ela se ergueu, saiu do seu quarto e voltou para a mesa.
— Serena... — começou a dizer a mãe, ainda de olhos arregalados.
— Sssh — fez Serena.
E se serviu de cenouras.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
O elemento mórfico -inho, que ocorre nas palavras “moveizinhos”, “tapetinhos”, “telefonezinho”, “bonequinhos” e “mesinha”, é incorporado às palavras por meio do processo de: