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Um dos grandes mitos perpetuados sobre a Independência do Brasil, na análise do jornalista e escritor Laurentino Gomes, é a ideia de que a separação de Portugal foi totalmente pacífica, um grande acordo político entre D. João VI, que retornara a Lisboa em 1821, e D. Pedro I, que ficara no Brasil. No recém-lançado "1822" (Ed. Nova Fronteira), Gomes mostra que, na verdade, o processo foi bastante violento.
- A ideia de que a separação foi pacífica, negociada entre pai e filho, não é verdadeira - afirma Gomes. - Em Minas, Rio e São Paulo foi um processo tranquilo. Mas no Norte, no Nordeste e no Sul o pau quebrou durante um ano e oito meses. E morreu muita gente. Pelos meus cálculos, foram 5 mil mortos. Não chega perto dos 25 mil da independência americana, mas também está longe de ser pacífico.
Quem mais lutou pela separação foram os baianos. Não por acaso, como mostra Gomes no livro, a Bahia é o estado que mais comemora a Independência, com grande participação popular inclusive, coisa rara em outras regiões. E não o faz no 7 de setembro, mas, sim, no 2 de julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador, em 1823.
Na época, a desigualdade social era enorme, com total concentração de renda. De cada três brasileiros, dois eram escravos, índios ou mestiços. O analfabetismo dominava inclusive entre os ricos - só 10% da população sabiam ler. As diversas províncias viviam em total isolamento.
- Isso tudo irrompe de forma violenta, na forma de um monte de rebeliões regionais e muitas mortes - constata Gomes. - Mas como o poder tenta legitimar-se como pacificador, aglutinador, organizador, cria a imagem de que houve um processo pacífico, muito diferente do que aconteceu.
Na avaliação de Gomes, a ideia de uma Independência pacífica, negociada, foi criada pelo novo governo.
- Acho que houve um esforço de suavizar, de mascarar as grandes tensões latentes na sociedade brasileira - diz o escritor. - Esse Brasil que emerge das margens do Ipiranga vem de cima para baixo, de um governo autoritário, que tenta organizar a grande confusão herdada da Colônia, com províncias isoladas e rivais, pobres, analfabetos, latifúndios, concentração de riqueza, ou seja, um país com muita chance de dar errado, de cair numa guerra civil ou étnica.
Por tudo, conclui o jornalista, o Brasil era um "improvável". O mais natural seria que, após a Independência, se esfacesse. E por que isso não aconteceu?
- Acho que (a união) foi o resultado de um projeto muito bem sucedido da Coroa Portuguesa no Brasil, que vem desde a época da colonização - defende Gomes.
Para o escritor, é um erro achar que a herança portuguesa é de improvisação, atabalhoamento, gente degredada e desqualificada. Segundo ele, a ação foi muito bem organizada.
E, após a Independência, D. Pedro I manteve a fórmula, aglutinando os interesses das elites ao distribuir privilégios e títulos de nobreza, mas intervindo com força a cada rebelião. Para Gomes, ele é um elemento de força que impede a divisão.
O Brasil que herdamos hoje é fruto desse projeto autoritário, de cima para baixo, de uma pequena elite que organiza todo o resto - resume. - A República tenta alargar um pouco a base de participação, mas o que se vê é uma república com prática monárquica, de general, caudilho, ditador, sempre impondo o Estado de cima para baixo.
"...Gomes mostra que, na verdade, o processo foi bastante violento." (l. 6/7) - Apresenta concordância nominal incorreta a frase: