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PLANO PASÁRGADA
Alguns amigos passaram recentemente pelos sustos de saúde típicos de quem está na faixa dos 50 anos. Aquele calorzinho discreto no peito, na hora da esteira ergométrica, termina em operação de safena. Uma dor estranha em todos os dentes (nunca tinha ouvido falar disso) pode ser também sinal de infarto.
Ainda que fazer uma cirurgia cardíaca esteja longe de ser um passeio à Disneylândia (não sei qual dos dois prefiro), a técnica parece ter avançado muitíssimo.
Pelo menos, ao visitar esses amigos no hospital, um dia depois da operação, encontrei-os lépidos, eufóricos, mais jovens do que antes.
Algo semelhante ocorreu comigo, com uma ou duas intervenções cirúrgicas a que me submeti. Numa delas, tudo pareceu tão fácil, tão preciso, tão “eletrônico”, que minha vontade era de rir.
Seria efeito da anestesia? Acordado o tempo todo, eu via meu coração ampliado na tela, espécie de aranha caranguejeira aos botes, recebendo o “stent” que o deixaria novinho em folha.
Mas se a anestesia é geral, durante algumas horas, a pessoa deixa de existir como sujeito; torna-se objeto, coisa, campo de manobras do cateter e do bisturi.
Sua inconsciência não é semelhante à do sono de todas as noites. Acordar, bem ou mal, envolve um mínimo gesto de vontade própria. Sair de uma operação é diferente. Devolveram-lhe a vida; ei-la, agora é com você, faça dela o que quiser.
Há algo de muito especial nessa situação; nenhum esforço extremo de meditação, imagino, poder reproduzir a ideia básica por trás dela.
A saber, a de que você é uma coisa e que sua vida é outra, bem diferente. Sua vida, que era você mesmo, tornou-se agora um objeto que você perde ou recupera. Um intervalo, uma distância, criou-se entre o ser vivo e a vida que ele tem.
Daí se explica, creio eu, tanto a vontade de fazer alguma coisa nova com a velha vida, como também a vontade de vivê-la exatamente do mesmo modo com que sempre foi vivida.
(Marcelo Coelho, Folha de S. Paulo, 05/10/2011, com adaptações)
No segmento “...com uma ou duas cirurgias a que me submeti...” (l.11/12), pode-se substituir a oração em destaque, segundo a norma culta e desconsiderando o valor semântico, do seguinte modo: