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LER E ESCREVER
Volta e meia, em conversas ou entrevistas, sou interpelado por estas duas perguntas fundamentais: por que e para quem escrever? Que nunca me tenha sido feita a pergunta "por que ler?", não me causa espanto. O filósofo Michel Tournier dizia que aquele que não é capaz de admirar é um miserável. Nelson Rodrigues arremataria a seu modo: um tal ser está prestes a cair de quatro, como uma besta. Ler nos dá instrumentos para admirar o mundo, para conhecê-lo de modo mais penetrante, complexo, tornando-o por isso mais interessante. As coisas não têm um valor por si mesmas: é preciso ter força de percepção para lhes atribuir devido valor, para enxergar nelas a beleza, a grandeza, a profundidade. Ler nos propicia uma percepção das coisas na qual se possa fundar a admiração. E um mundo admirado, por sua vez, é um mundo erotizado. Isso quanto a ler. Mas e escrever? Aqui a resposta, para mim, já não é tão evidente.
Para começar, trata-se de uma atividade que sofre de certo mal-estar quanto a seu reconhecimento social. Todo escritor tem a súbita revelação desse fato ao preencher a ficha de registro que se recebe no hotel: o que colocar no campo "profissão"? Escrever não é bem uma profissão sob muitos aspectos: não exige o aprendizado de uma técnica (e sim sua invenção), nem tampouco é evidente a necessidade social dessa técnica (sua importância é a princípio existencial, e só indiretamente social: oferecer aos cidadãos instrumentos que permitam o desenvolvimento de sua capacidade de criticar e admirar). Por tudo isso, tal técnica é quase sempre mal remunerada.
De uma perspectiva pragmática, portanto, não é de se estranhar que os escritores se vejam sempre diante da pergunta "por que escrever?"
(Jornal O Globo, 15 de setembro de 2010, adaptado)
A palavra que tem classificação diferente das demais na alternativa: