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LEITE DERRAMADO
Antes de exibir a alguém o que lhe dito, você me faça o favor de submeter meu texto a um gramático, para que seus erros não me sejam imputados. E não se esqueça que meu nome de família é Assumpção, e não Assunção, como em geral se escreve, como é capaz de constar aí no prontuário. Assunção, na forma mais popular, foi o sobrenome que aquele escravo Balbino adotou, como a pedir licença para entrar na família sem sapatos. (...)
A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor da memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto. (...)
O distúrbio de mamãe começara anos antes por um tipo de disfasia, ela falava clara e corretamente, mas com as palavras todas trocadas. E ao perceber que ninguém a compreendia, enfezou-se, passou a falar francês e pronto. Também em francês trocava as palavras, mas seu chofer Auguste não só a compreendia, como lhe respondia com palavras ainda mais embaralhadas. Ela o chamava de Eulalie, e ele, com avançada esclerose, atendia à vontade pelo nome do antigo patrão.
(HOLLANDA, Chico Buarque de – Leite Derramado, Companhia das Letras, 2009, com adaptações)
Leia os segmentos a seguir.
“...Assunção, como em geral...” (l. 4)
“...escreve, como é capaz...” (l. 4/5)
“...adotou, como a pedir licença...” (l. 6/7)
“...intrometer, como a empregada...” (l. 10/11)
“Ou como a filha...” (l. 11/12)
A respeito do valor semântico das conjunções sublinhadas nos segmentos acima, pode-se afirmar que há: