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O fim da impunidade
(...) Como eu já disse aqui, às vezes parece que sou o único a ler certas coisas, a ponto de recear ser tido como mentiroso.(...)
Bingo é um vira-lata, de naturalidade piauiense ou maranhense, não se sabe ao certo. Não saiu foto dele no jornal (talvez ele tenha exigido cobrir o focinho, como fazem os criminosos humanos, diante das câmeras implacáveis dos jornais e da tevê), nem foram publicados maiores dados — como direi? — pessoais sobre ele, que, certamente, não fala nem em juízo, quanto mais a um jornalista qualquer. Mas estou seguro de que seu lugar na história já está garantido, pois é pivô de um caso singular.
Ele foi condenado a encarceramento por um juiz da cidade de Timon, no Maranhão, e está cumprindo pena há um ano e meio, no Centro de Controle de Zoonoses local. Segundo também leio, ele conta com a assistência de um advogado, mas, ao que parece, não tem direito a fiança e não pode explicar suas ações e certamente teve pedidos de habeas corpus indeferidos — porque ninguém fala cachorrês com a necessária fluência para um evento dessa magnitude.
Tampouco sei se a prisão é arbitrária, apesar de ser verdade, segundo testemunhas, que ele mordeu alguém, que deu queixa em juízo. (...)
Não se pode dizer que Bingo tenha sido vítima de maus-tratos ou que seus direitos caninos estejam sendo violados, além do que já foram. Preso por um Oficial de Justiça, conduzido numa viatura para o presídio sem direito a defesa, já deve ter sido o bastante. (...)
Mas como eu dizia, os direitos de Bingo estão mais ou menos garantidos, dentro do estabelecimento penal em que se encontra. É mantido numa jaula decente e, como qualquer outro detento, tem direito a banhos de sol, embora não se informe se ele, como deveria ser, também faz jus a visitas íntimas periódicas. (A visitas humanas ele tem direito, mas pode ser que, de vez em quando, pense numa cadelinha caridosa, nunca se sabe.) (...)
Mas tudo neste mundo tem seu lado positivo. O Brasil, pelo menos, pode alegar que sua Justiça funciona e aplica o dinheiro público escrupulosamente. Em época eleitoral, como a de agora, é mesmo possível que algum candidato prometa a criação de juizados especiais para cachorros ou para bichos em geral ou até instituir o júri popular para animais acusados de faltas muito graves.
O pronome certas, em “...sou o único a ler certas coisas,” (l. 1-2, do Texto II), classifica-se como: