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Gol de Pelé
Foi em 1969. O Santos jogava contra o Vasco da Gama no estádio do Maracanã.
Pelé atravessou o campo feito ventania, esquivando-se dos adversários no ar, sem tocar no chão, e quando já se metia no arco com bola e tudo, foi derrubado.
O árbitro apitou pênalti. Pelé não quis cobrá-lo. Cem mil pessoas o obrigaram, gritando seu nome.
Pelé tinha feito muitos gols no Maracanã. Gols prodigiosos, como aquele de 1961, contra o Fluminense, quando tinha driblado sete jogadores e o goleiro também. Mas este pênalti era diferente: as pessoas sentiam que tinha algo de sagrado. E por isso ficou em silêncio o povo mais alvoroçado do mundo. O clamor da multidão parou de repente, como obedecendo a uma ordem: ninguém respirava, ninguém estava ali. Subitamente nas arquibancadas não havia ninguém, e no campo tampouco. Pelé e o goleiro, Andrada, estavam sós. Sós, esperavam. Pelé, de pé junto à bola na marca branca do pênalti. Doze passos adiante, Andrada, encolhido, à espreita, entre as traves.
O arqueiro chegou a roçá-la, mas Pelé cravou a bola na rede. Era seu gol número mil. Nenhum outro jogador tinha feito mil gols na história do futebol profissional.
Então, a multidão voltou a existir, e pulou como um menino louco de alegria, iluminando a noite.
GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. p.131. Porto Alegre: L&PM, 2004.
Na frase “O clamor da multidão parou de repente” (linha 17), o sentido da palavra destacada é