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Quem me conhece sabe da paixão quase imoderada que alimento pelo rio velho. Ah, rio São Francisco, como é que eu posso falar? O mais fácil de explicar é dizer que ele é meu parente: para nós daqui, parentela é coisa muito forte – e o que a gente ama assim tanto, há de ser pai ou irmão ou pelo menos tio ou primo. Ou avô, ou padrinho. Rio velho meu padrinho, quanto tempo que estes tristes olhos não te viam, e cada vez mais belo e importante, carregando tanta água, tanto peixe, carregando sabe Deus o quê!
Até 1943 a gente nunca tinha visto o rio cara a cara. (Só de avião, mas lá do alto parece mapa, mentira, cinema.) E aí chegamos em Belo Horizonte demandando a Pirapora e, pela primeira vez, ouvimos falar do rio nas conversas de um amigo cuja amizade foi um momento rápido da nossa vida: em poucos dias o conhecemos e em poucos dias também o perdemos, que ele de repente deu adeus e partiu (...)
– Sim, o Comandante Otávio Machado foi que nos iniciou no culto do Velho Chico, como dizia ele. Contou-nos casos e lendas, nos deu uns mapinhas clandestinos que ele manuseava como se fossem cartas de amor, nos deu até retratos – pois ele chegava ao ponto de usar retratos no bolso.
Saí de Belo Horizonte – conheci o rio numa madrugada que jamais esquecerei. Desde então...
Aliás, minto. O caso não começou diretamente em 1943. Foi muito tempo antes, muito mais tempo: quando eu tinha exatamente seis anos de idade e, junto com a minha família, ia de muda para o Rio. O navio passava entre Sergipe e Alagoas, e o piloto do navio, meu amigo inseparável (por nome Nestor de Noronha; onde andará esse moço que, se for vivo, moço mais não será? Ainda andará de farda branca e terá o retrato da noiva na corrente do relógio?), me chamou para a amurada e me mostrou uma correnteza amarela cortando as águas verdes do mar: “Ande, menina, venha conhecer o rio São Francisco!”
Fiquei olhando, olhando. Já estava longe, e eu ainda olhava. Que rio seria aquele, assim medonho de poderoso para romper as águas do oceano, o oceano Atlântico? Ah, começou de longe. Quando o Comandante Machado nos iniciou no culto, na verdade só estava mesmo soprando brasas velhas.
Bem, agora vocês entendem a razão por que, agora, quando saímos do sertão de Canudos e alcançamos o São Francisco na Barra do Tarrachil, só o que não fiz foi chorar. Mas faltou pouco. Uma espécie de sentimento de culpa, porque vivo tão longe dele, porque só o visito de ano em ano, e assim mesmo as mais das vezes passando por cima, dando adeus de longe, voando a uma légua de altura. Perdendo todos os dias aquela beleza pungente e tão imutável porque intransferível. Uma espécie de beleza sem cura, que não encontra feiúra de paisagem em redor, feiúra de estrada, casebre e pobreza que a estraguem.
QUEIROZ, Rachel de. Coleção O DIA Livros – vol. 6. (Adaptado).
“Que rio seria aquele, assim medonho de poderoso para romper as águas do oceano, o oceano Atlântico?” (l. 40-42)
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