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Feito de areia, espinhos e solidão, o Raso da Catarina é o coração enviesado da caatinga brasileira. A região é um imenso areal de solo pedregoso, tabuleiro de terras rasas com grande capacidade de drenagem, que absorve as águas da chuva com espantosa rapidez, mantendo a superfície permanentemente seca. O Raso ocupa uma grande área dentro da caatinga brasileira, que se estende pelo interior de todos os Estados do Nordeste e parte de Minas Gerais, ocupando 11% do território do País.
A primeira parte do nome, Raso, se deve ao relevo predominantemente plano e à vegetação rasteira. A segunda, Catarina, parece ter origem na Fazenda da Catarina, que existe ainda hoje. Segundo dizem os antigos moradores do lugar, Catarina teria fundado sua própria fazenda em uma terra hostil. Contam que ela lutou contra a seca durante anos, mas foi derrotada pelo clima e por uma nuvem de gafanhotos que não deu trégua às suas lavouras de milho e feijão. Acabou enlouquecendo e, solitária, perdeu-se naqueles ermos. Dizem que até hoje vaga por ali, ajudando vaqueiros a achar animais perdidos e cuidando da lavoura minguada de seus conterrâneos.
Nesse reino da seca, a temperatura chega aos 43 °C nos dias mais quentes. Como o solo não retém o calor, à noite o termômetro desce a 14 °C. As chuvas, mesmo nos anos mais generosos, não atingem 400 mm/ano, por isso não existem rios ou riachos perenes. O único rio que se mantém durante todo o ano é o Vaza-Barris, que forma o açude de Cocorobó, perto de Canudos. Os outros têm vida curta, correndo apenas por algumas horas e desaparecendo em seguida, tragados pelas areias. No mais é a seca total. A água que resta fica concentrada nas depressões nas rochas e em açudes construídos nos locais onde o lençol de água subterrâneo é mais próximo da superfície.
Quando chega a chuva – o que só acontece ocasionalmente entre maio e julho – a paisagem se transforma completamente. A vegetação que antes parecia morta (mas na verdade estava apenas seca e sem folhas para suportar a falta de água) parece ganhar vida. Todas as plantas florescem: o pinhão cobre-se de flores escarlates e orquídeas e bromélias abrem suas flores de variados matizes.
Ali também acontecem outros milagres: na Toca Velha há uma nascente perene onde a água goteja o ano todo, criando um poço de águas limpas. Milagre maior a natureza criou dentro do croatá, um tipo de bromélia que armazena em seu bulbo grande quantidade de água e que, cortada com perícia, permite ao sertanejo matar a sede e sobreviver.
ALCÂNTARA, Araquém. Marie Claire. mar. 2005.
Na frase “Catarina teria fundado sua própria fazenda em uma terra hostil.” (l. 14-15), a forma verbal destacada exprime: