///
Dona Teresa
Minha empregada, Mme. Thérèse, que já ia se conformando em ser chamada de dona Teresa, caiu doente. Mandou-me um bilhete com a letra meio trêmula, falando em reumatismo. Dias depois apareceu, mais magra, mais pálida e menor; explicou-me que tudo fora consequência de uma corrente de ar. Que meu apartamento tem um courant d’air terrível, de tal modo que, àquela tarde, chegando em casa, nem teve coragem de tirar a roupa, caiu na cama. “Dói-me o corpo inteiro, senhor; o corpo inteiro.”
O mesmo caso, ajuntou, houve cerca de 15 anos atrás, quando trabalhava em um apartamento que tinha uma corrente de ar exatamente igual a essa de que hoje sou sublocatário. Fez uma pausa. Fungou. Contou o dinheiro que eu lhe entregava, agradeceu a dispensa do troco. Foi lá dentro apanhar umas pobres coisas que deixara. Entregou-me a chave, fez qualquer observação sobre o aquecedor a gás – e depois, no lugar de ir embora, deixou-se ficar imóvel e calada, de pé, em minha frente. Repetiu a história da outra corrente de ar, a de 1935. Passou a mão pelos cabelos grisalhos – e me revelou que sua patroa de então, uma senhora forte, rica, bonita, de menos de quarenta anos, também fora vítima da corrente de ar. Outra pausa e acrescentou: morreu.
Vigiou um pouco minha surpresa, mas como eu não dissesse nada, queixou-se do frio. Tive um movimento de ternura por dona Teresa: ofereci-lhe o cachecol que o pintor Caribé comprou para mim em Buenos Aires, onde – isso me ocorreu na ocasião – um cachecol tem o nome bastante pitoresco e vivo de bufanda. Eu pensava apenas nisso, na palavra bufanda, quando Mme. Thérèse voltou a 1935 e detalhou como sua patroa morreu depois de pegar uma pneumonia devido à corrente de ar – igual a esta, senhor, igual. E uma mulher forte, nova...
Fiz uma pergunta desviacionista: era loura? Sim, loura, rosada. Meus olhos devem ter ficado tristes. Não há falta na praça de mulheres louras e rosadas, mas também não há tantas a ponto de devermos permitir que elas sucumbam assim, levadas pelo vento dos corredores. Fiquei calado. Então dona Teresa fez a seguinte pergunta: – E a sua tosse, senhor, vai melhor?
Depois do quê, se despediu para sempre, com muitos agradecimentos; e desceu a escada com uma certa tristeza. Como sentisse que eu ficara a olhá-la da porta, voltou-se na primeira curva do caracol e me disse, suave como a minha mãe em Cachoeiro de Itapemirim, que eu cuidasse da tosse. Mas disse – hélas! – sem esperança mais nenhuma.
De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa e quanto à acentuação, observe a frase transcrita do texto e, em seguida, assinale a alternativa em que a palavra deva ser acentuada de acordo com a mesma regra de acentuação da palavra destacada abaixo.
“Dias depois apareceu, mais magra, mais pálida e menor; explicou-me que tudo fora consequência de uma corrente de ar.”