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Sonhos de uma sesta
Como é bom tirar uma sesta, abaixar a cortina e dar um risinho safado para o capital que se esborracha lá fora; como é bom, mesmo para um falido, ajeitar os travesseiros – de palha ou de pena de ganso – e cerrar os olhos para sonhos pequenos. Uma sesta à sombra da todo-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, aqui perto do meu esconderijo; uma sesta com os macaquinhos lá fora nos fios, como a minha sesta carioca; uma sesta com as janelas abertas na rua da Aurora, a rua mais linda do mundo, de onde avistam-se Beberibes, Capibaribes, Áfricas, Tongas e Polinésias...
A minha sesta ibérica, como na origem do costume, lá no Juazeiro e Crato. Como é bom tirar uma sesta com uma nega enroscada aos pés, sono leve de conchinha, colherzinha e quetais. Mas os dois precisam estar no espírito da sesta. Uma alma em desassossego acaba com qualquer sesta, sesta de favor não vale, sesta carece de savoir faire (saber fazer)... Um gato ali pelas nossas costelas – opa!, um felino de carne e osso, um bichano – que delícia. Como o Menezes, nosso gato com cara de taberneiro português, é bom de sesta!
Numa sesta não vale sonhos épicos, apenas sonhos pequenos, daqueles que a gente realiza num piscar de olhos. Ou simplesmente deixa para lá. Ridículo correr desembestadamente atrás de sonhos. Sonhos são filmes grátis, que vemos deitadinhos, sem o barulho ridículo de pipoca ou de gente.
– Ei, morena linda que passa, vamos ao cinema?
Aí trago ela para a sesta. Cinema é travesseiro e pezinho colado.
Os sonhos são feitos pelos cineastas mortos, jeito de ocupar-lhes no purgatório. Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.
Sesta: modo de usar. Quanto dura uma sesta? O ideal é que não se faça o uso do despertador, que não seja um curta-metragem, que seja um filme que se durma nele inteirinho, que se beije o olho de quem dormir primeiro, como sempre guardo as minhas mulheres, até com uma rezinha baixinho para nunca acordá-las e sempre protegê-las, ô Deus guarde essa costela de Antonia colada à minha e que esse suorzinho seja o Super Bonder possível, a resina mais grudenta, que nos livra do fim, amém. Mas o amor acaba, meu filho, sopra um anjo pousado no ombro de Paulo Mendes Campos, que me diz baixinho, sossega, menino, esse coração.
A sesta com a bênção das mulheres e da minha mãe.
– Meu filho, durma pelo menos uma meia horinha depois do almoço.
Minha mãe chorava no dia em que fui embora, mas nada dizia além da receita da sesta. Mulher de coragem: deixar aquele graveto, só o couro e o osso, ganhar a estrada apenas com uma rede que ela botou no fundo da mala...
Como eu queria achar de novo essa rede e tirar a maior das sestas, mas troquei por alguma coisa, vício, comida, sei lá, entre uns desalmados de um cortiço do Recife, num sótão ali na Barão de São Borja. Até quando a usei, era uma rede que balançava lágrimas e meus chinelos sempre acordavam boiando de manhã.
De acordo com la norma-padrão da Língua Portuguesa e quanto à significação das palavras, observe o trecho transcrito do texto e, em seguida, assinale a alternativa correta.
“Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.”