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Gente que não gosta de música
Nunca conheci uma pessoa que não seja tocada pela música. Gente que não fica com os pelos arrepiados, não se emociona, não é chacoalhada por dentro e por fora quando ajusta os fones de ouvido e entra em outra órbita. Música melhora o meu dia. Malho melhor, cozinho melhor, escrevo melhor, penso melhor. Se estou desanimada, ela me salva. Se estou bem, ela comunica minha felicidade ao mundo.
Sem melodia, minha vida seria vazia. Talvez por isso eu tenha ficado tão impressionada com o resultado de uma pesquisa publicada recentemente em uma revista científica. Pela primeira vez, os cientistas descreveram a existência de pessoas que não sentem prazer ao ouvir música. Embora sejam perfeitamente sensíveis a outros estímulos (comida, sexo, dinheiro, etc), alguns indivíduos não dão a mínima para a música.
Não é doença, nem indício de depressão. Afinal, as pessoas se interessam por outras coisas e se sentem recompensadas por outros estímulos. É apenas uma característica que, no artigo, os cientistas chamam de anedonia musical.
Não é algo comum, nem exatamente raridade. “Para ser honesto, também não conhecia nenhuma pessoa assim até começar a realizar esses estudos”, disse o pesquisador de uma universidade da Espanha.
Num trabalho anterior, a equipe de pesquisadores testou 1.500 pessoas. Cerca de 5,5% apresentaram baixa sensibilidade ao prazer derivado da música, embora sentissem motivação normal em relação a outros estímulos (comida, sexo, dinheiro, etc).
Intrigado com os primeiros resultados, o pesquisador decidiu continuar a investigação. No novo estudo, conseguiu demonstrar que essas pessoas não têm nenhuma dificuldade de percepção musical. Elas são capazes de reconhecer corretamente as emoções proporcionadas pela música. Apenas são indiferentes a ela.
Na pesquisa, a descarga de hormônios no cérebro e outros parâmetros fisiológicos foram avaliados (como frequência cardíaca e condutividade elétrica da pele) em dois momentos. Primeiro quando os voluntários participaram de um jogo em que podiam ganhar ou perder dinheiro de verdade. Depois no momento em que ouviam música.
Todos os voluntários reagiram fisiologicamente ao teste do dinheiro, mas uma parcela não reagiu ao estímulo musical. Mais do que curiosidade, a descoberta tem valor científico. “A identificação desses indivíduos pode ser importante para entender as bases neurais da música”, diz o pesquisador. Ou seja: entender como um conjunto de notas é traduzido em emoções.
“O fato de existir gente que não gosta de música, mas sente prazer com outros estímulos indica que temos diferentes formas de acessar o sistema de recompensa no cérebro”, afirma ele. “Alguns estímulos podem ser mais eficazes que outros”.
O sistema de recompensa do cérebro é aquele que produz bem-estar e euforia quando estimulado. É por isso que sentimos desejo de repetir uma sensação prazerosa. Entender o papel dos diferentes estímulos pode contribuir para as pesquisas sobre dependência e sobre transtornos do humor.
Se a melodia não libera os hormônios do prazer em todo mundo, para que ela serve? A música está presente em todas as culturas desde a pré-história, mas não parece proporcionar vantagem biológica alguma.
Gostar de música não facilita a vida de ninguém na hora de conseguir comida. Nem faz a fêmea acertar na escolha do macho mais apto a lhe dar filhos saudáveis. Bem, quanto a isso há controvérsias. Todo garoto desengonçado que arranha umas notas no violão já deve ter percebido que essa brincadeira pode ser capaz de atrair as meninas tanto quanto bíceps trabalhados e tatuados.
(Cristiane Segatto – Revista Época, 07/03/2014 – disponível em http://www.epoca.globo.com - adaptação)
Na linha 17, a palavra “embora” indica relação de ____________ e poderia ser substituída por ____________, desde que ___________ alterações no período.
As lacunas do trecho acima ficam correta e respectivamente preenchidas por: