///
Devemos ser poliglotas na nossa língua, afirma Bechara, 94, gramático da ABL
Para o professor, educação deve capacitar alunos a compreender o português em todas as variantes e valorizar norma-padrão
Thaís Nicoleti de Camargo
É comum ouvir que gramáticos e linguistas têm visões diferentes da língua, e, em alguns casos, testemunhamos contendas entre uns e outros. Bechara, no entanto, não se alinha aos "puristas", aqueles gramáticos que condenam os estrangeirismos ou as mudanças linguísticas em geral.
A propósito, ele dá o veredito sobre a expressão "testar positivo", que se incorporou rapidamente ao português em razão da pandemia de Covid-19: "se traduz bem, se expressa bem, é capaz de dizer o que realmente quer dizer" — em suma, se funciona bem, fica. Observa-se, então, a introdução de uma nova expressão na língua. A lição parece simples, mas é de suma importância para entender a dinâmica das línguas.
Linguistas e gramáticos, finalmente, têm cada qual o seu espaço: "O linguista é o teórico, aquele que estabelece os princípios de uso, e o gramático seleciona esses usos, faz uma seleção deles para falar e escrever correntemente a língua", afirma o professor.
Equivoca-se, porém, quem imagina que o conhecimento da teoria garanta todas as condições para escrever bem. Segundo Bechara, "o fato de você sistematizar teoricamente a língua não significa que você seja um leitor, um bom escritor etc.; são coisas diferentes: uma é a teoria, outra é a prática; uma coisa é conhecer a língua, como seu usuário, outra coisa é sistematizar cientificamente a língua".
Cabe aos professores de português, portanto, a tarefa de "transformar o aluno em um poliglota dentro da sua própria língua", ou seja, capacitá-lo a compreender a língua em todas as suas variantes, que podem ser regionais e sociais.
Bechara, no entanto, reforça que o trabalho na escola deve tomar por base a língua-padrão. "No Brasil, o ensino da língua portuguesa é um ensino muito feito para o dia a dia. A pessoa não estuda a língua para ser um escritor exemplar, capaz de transmitir os seus pensamentos de modo claro e elegante". Aproveita para dizer que "elegância", no caso, é saber "aproveitar todos os recursos que a língua põe à sua disposição".
Segundo Bechara, “o fato de você sistematizar teoricamente a língua não significa que você seja um leitor, um bom escritor etc...” (Linhas 13-14). No trecho transcrito, o elemento sublinhado deve ser considerado