///
A ordem marcha. A imaginação dança.
Rubem Alves
1 Recebi um presente de uma mulher que desconheço. Veio embrulhado em papel
2 bonito. Abri. Era um quadrinho bordado a ponto de cruz. Está pendurado à minha frente.
3 Nele está escrito: “Deus abençoe esta bagunça”. Não sei como ela adivinhou pois ela não
4 me conhecia e nunca havia entrado no meu escritório. Mas o fato é que ela adivinhou que
5 as coisas que eu escrevia nasciam de uma grande bagunça.
6 Faz tempo publiquei dois livros com o nome de "Quarto de Badulaques". Quartos de
7 badulaques eram quartos de bagunça, onde as coisas eram colocadas sem nenhuma ordem.
8 Nos quartos de badulaques a imaginação voa solta. Eles eram a delícia das crianças.
9 Quartos arrumados amarram a imaginação. Cada coisa em seu lugar...
10 Numa casa arrumada cada coisa tem um lugar certo. Mundo ordenado, qualquer
11 desvio fica logo evidente. Por isso, para não deixar evidências da presença da gente num
12 certo lugar é preciso deixar as coisas no lugar preciso onde estavam quando chegamos. Às
13 vezes um simples fio de cabelo na pia do banheiro faz a denúncia...
14 Ela era uma mulher bonita, longos cabelos claros. Mas o seu corpo era morada de
15 um demônio terrível, a “compulsão pela ordem”. Ela só tinha um pouco de tranquilidade
16 quando a empregada ia embora, os filhos estavam na escola e o marido ainda não voltara do
17 trabalho. Sozinha na casa, tinha então a certeza de que nenhum objeto sairia do lugar —
18 porque não havia ninguém que o movesse. Os objetos do seu mundo eram fixos no espaço.
19 Kurt Goldstein (1942), neurologista, fez um estudo sobre os efeitos das lesões no
20 cérebro de feridos de guerra. Os efeitos variavam segundo a parte do cérebro que havia
21 sido lesada. E ele observou que, quando uma certa parte do cérebro era lesada o ferido
22 apresentava uma curiosa alteração de comportamento: ele se tornava meticulosamente
23 ordeiro, obsessivo em relação à posição dos objetos no seu ambiente. Nas entrevistas ele
24 passava o tempo todo compulsivamente organizando os objetos que se encontravam sobre
25 a mesa, que o entrevistador, de propósito, insistia em desarrumar. Esse fenômeno levou
26 Goldstein à conclusão de que, antes do ferimento, quando o cérebro estava inteiro, de
27 posse de todas as suas funções, o ferido não precisava de uma ordem material, concreta,
28 para organizar seu mundo. O cérebro convivia bem com a desordem, percebia ordem na
29 desordem. Mas quando o cérebro era lesado e suas funções normais prejudicadas, o
30 cérebro necessitava de uma “bengala” em que apoiar o seu comportamento.
31 Esse experimento de Goldstein sugere que a “bagunça” não significa indisciplina.
32 Significa, possivelmente, que o bagunceiro põe uma ordem virtual na bagunça real.
33 A delícia de um quebra-cabeças está precisamente na “bagunça” das peças.
34 Quando o trabalho termina e todas as peças estão colocadas em ordem o “brinquedo” acaba
35 e a inteligência se assenta na poltrona... É isso que acontece com aquelas pessoas que
36 colam o quebra-cabeças depois de armado. Ele nunca mais será brinquedo. Nunca mais
37 fará pensar.
38 Hegel escreveu, no prefácio à "Fenomenologia de Espírito", que o triunfo da razão é
39 uma orgia bacanal na qual nem um dos participantes está sóbrio. Assim abençoo a minha
40 bagunça...
O aumento de gás carbônico (CO2) na atmosfera terrestre é considerado como responsável pelo aquecimento gradual do planeta, fenômeno conhecido como