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Mal-ajambrados
1 O problema não era nas minhas costas, disse o médico, era na nossa espécie.
2 Então tirou da estante um velho livro de anatomia e mostrou que a coluna e o abdome
3 humanos haviam se desenvolvido durante milhões de anos para sustentar quadrúpedes,
4 não bípedes.
5 Acontece que lá nas savanas da África, num dia iluminado para o intelecto e
6 aziago para a lombar, algum ancestral conseguiu se apoiar em duas pernas, posição que
7 lhe permitiu enxergar mais longe e ter as mãos livres para construir ferramentas, fazer
8 cafuné e jogar joquempô.
9 A ereção do hominídeo impressionou muitíssimo as hominídeas do bando, que
10 vieram todas correndo e gritando "Seus genes! Seus genes! Queremos espalhar seus
11 genes!", razão pela qual passamos a andar sobre duas pernas e a bufar com as mãos nas
12 costas, per saecula saeculorum. O médico fechou o livro e me indicou um pilates.
13 Enquanto ergo lentamente o "core", ao lado de mais seis ou sete entrevados
14 bípedes que buscam, a duras penas, o fortalecimento torácico, sou tomado por um
15 pensamento: e se, em vez de levantar, o macacão tivesse deitado? E se, em vez de
16 passarmos de quatro para dois apoios, tivéssemos evoluído para nenhum?
17 Ah, que futuro lindo nós perdemos! Em vez de andarmos envergados por aí,
18 enfrentando passo a passo a inclemente gravidade, viveríamos nos arrastando ou rolando
19 mundo afora, feito leões marinhos, feito morsas gordas e descansadas, sem jamais
20 desconfiar que sob nosso adiposo sleeping-bag corporal haveria horrores chamados
21 "lombar" ou "escoliose" ou "lordose" ou "hérnia de disco".
22 Dizem os biólogos que o bipedalismo foi crucial para o desenvolvimento humano –
23 e não me refiro só à pedra lascada, ao cafuné e ao joquempô. Tirar a fuça do chão e pôr
24 os olhos no horizonte sentenciou a primazia da visão sobre o olfato, do intelecto sobre os
25 instintos, da cultura sobre a natureza e daí pra escrevermos sonetos, inventarmos a pizza
26 com borda recheada de catupiry e projetarmos drones que entregam sonetos ou pizzas
27 com borda recheada de catupiry foi um pulo.
28 Mas quem disse que, deitados, não poderíamos ir ainda mais longe – mesmo sem
29 sair do lugar? Quem sabe o que teria acontecido se, em vez de Homo erectus, depois
30 Homo sapiens e Homo sapiens sapiens, evoluíssemos para Homo statelatus, depois para
31 o Homo statelatus sapiens e – por que não? –, Homo statelatus sapientisimus?
32 Sim, pois se enxergar mais longe nos deu a chance de encontrar mais comida e
33 mais comida resultou no aumento do nosso cérebro, imagina o tamanho da nossa cachola
34 com todas as calorias economizadas em uma existência 100% horizontal. Seríamos hoje
35 morsas cabeçudas discutindo física quântica e James Joyce com as panças
36 esparramadas no chão?
37 Não há como saber. A biologia só consegue traçar o caminho percorrido, não os
38 infinitos labirintos genéticos que deixamos de percorrer. Me resta apenas amaldiçoar o
39 ancestral que primeiro se ergueu, fazer mais trinta segundos de "fortalecimento de
40 oblíquo" e três séries de "abdominais laterais sobre a bola suíça", a fim de ajudar minha
41 mal-ajambrada verticalidade a dar com menos dor os passos que lhe restam antes que um
42 susto, uma bala ou os vícios me ponham, definitivamente, na horizontal.
Julgue as afirmações abaixo com base nas noções de semântica.
I Há um eufemismo em “antes que um susto, uma bala ou os vícios me ponham, definitivamente, na horizontal” (l. 41 e 42).
II No fragmento de texto “e se, em vez de levantar, o macacão tivesse deitado?” (l. 15), o autor recorre a um pleonasmo para expor suas conjecturas.
III Com base no contexto linguístico, é possível depreender que a relação semântica existente entre as palavras “iluminado” (l. 5) e “aziago” (l. 6) é de sinonímia.
IV O autor acrescenta, em sua reflexão, uma nova classe aos hominídeos, a do Homo statelatus, criando assim um novo vocábulo. As novas palavras que se formam, revelando o dinamismo de uma língua, são denominadas neologismos.
Está correto o que se afirma em