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Vestibular para crianças
1 O que eu estava fazendo no dia 13 de dezembro de 1968, quando foi
2 decretado o AI-5, que marcou o endurecimento da ditadura? Queria ser
3 professor. Estava fazendo vestibular para a Faculdade de Filosofia. Embora
4 hoje eu seja um empresário, nunca deixei de acompanhar as desditas de
5 uma classe a que, um dia, cheguei a considerar seriamente a proposta de
6 pertencer. A propósito, minha esposa insiste que essa seria a minha
7 verdadeira vocação. Acredito no poder transformador da educação. Na
8 necessidade da escola pública de boa qualidade, gratuita e universal, mas
9 me revolta profundamente o desrespeito com que são tratados os
10 professores no momento. A escola tem de ser aberta, tem de acolher a todos,
11 em especial aos mais carentes, mas isso não quer dizer que aos mestres não
12 cabe impor condições para receber os alunos em sala de aula. Tudo na vida
13 tem limites.
14 Minha proposta é bem simples. Antes de ingressar no primeiro grau,
15 todas as crianças deveriam ser submetidas ao vestibular das “palavrinhas
16 mágicas”. Quem souber usar as palavrinhas entra. Quem não souber, papai e
17 mamãe levam de volta para casa e só trazem novamente quando elas
18 tiverem aprendido. Ficam para o semestre seguinte para uma nova tentativa.
19 Quais são essas palavrinhas mágicas? “Por favor; muito obrigado; com
20 licença; desculpe.” Coisas do gênero. As crianças precisam demonstrar que
21 os pais ou responsáveis as estão educando. Elas precisam mostrar respeito
22 às pessoas que vão ensiná-las, elas precisam demonstrar que sabem
23 conviver em sociedade. Estamos, pouco a pouco, dando novamente valor à
24 palavra não. Já é consenso de que não é possível permitir tudo aos filhos. Da
25 mesma forma, nossa ânsia de termos um país sem analfabetismo deixa-nos
26 com a ideia de que temos de ter uma aceitação incondicional da criança.
27 Alguns dirão que, ao fim e ao cabo, só os pequenos terão prejuízo.
28 Negativo. Nossa legislação já permite processar os pais por abandono
29 intelectual. E, ao final, se for necessário abrir uma exceção: o aluno não
30 poderia passar ao segundo ano sem ser alfabetizado e sem saber as
31 mágicas palavras, do bom convívio social. Que se manifestem os contrários,
32 para que tenhamos o bom debate.
Luiz Fernando Oderich Da ONG Brasil Sem Grades [adaptado]
Disponível em: http://historiasdogaviao.blogspot.com.br/2010_12_01_archive.html. Acesso em: 22 maio 2016.
Há uma palavra formada por derivação regressiva em