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Apenas um cão
Cecília Meireles
1 Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim –
2 plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no
3 patamar. E aos meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal no pórtico, um
4 cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho
5 doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pelo; o olhar dorido e
6 profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.
7 Com grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço
8 nenhum gesto. Envergonho-me de haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali,
9 eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse:
10 também os animais devem esquecer, enquanto dormem... Ele, porém, levantava-se e
11 olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da
12 frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou
13 de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar
14 alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para tratamento... Mas
15 tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha
16 frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar
17 numa espécie de súplica.
18 Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei
19 esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos
20 homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem
21 nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a
22 descer as escadas e as suas rampas, com plantas em flor de cada lado, as borboletas
23 incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do
24 portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
25 Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem
26 firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de
27 criaturas inumeráveis. Esteve no meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz
28 por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta.
29 Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que
30 respeitosamente pede desculpas por ter ocupado um lugar que não era o seu. Depois
31 pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o
32 dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Disponível em:< http://tirodeletra.com.br/cronica_canino/CeciliaMeireles-Apenasumcao.htm>. Acesso em: 2 set. 2016.
No trecho “Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para tratamento...” (l. 13 e 14), os pronomes destacados