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O escularápio
Um escularápio foi chamado para tratar de uma rica senhora que sofria de catarata. Sendo, porém, desonesto, o nosso querido amigo, sempre que ia visitar a rica velha, furtava-lhe um objeto precioso. Quando acabaram os objetos preciosos, ele começou, despudoradamente, a levar-lhe também os móveis, um a um.
Afinal, certo dia, não tendo mais o que roubar, deixou de visitar a velha. Mas, não contente com isso, sapecou-lhe em cima uma conta terrível, capaz de abalar mesmo a fortuna do mais rico catarático. A velha protestou, dizendo que não pagava, e a coisa foi parar no tribunal. E foi no Tribunal que a velha declarou o motivo de sua recusa em pagar. Disse: “Não posso pagar a conta do senhor escularápio, doutor médico, porque eu estou com a vista muito pior do que quando ele começou a me tratar. No início do tratamento eu ainda via alguma coisa. Mas, agora, não consigo enxergar nem os móveis lá da sala.”
Moral: A extrema desonestidade acaba visível mesmo para um cego.
(FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. 12 ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991)
Nesse texto de Millôr Fernandes, vale ser destacado:
I. A palavra “escularápio”, que intitula a fábula, é um exemplo de neologismo, ou seja, uma palavra inventada.
II. A palavra “catarático” forma-se pelo processo de parassíntese.
III. No primeiro parágrafo, o emprego das expressões “rica senhora” e “rica velha” revela significação equivalente, ou seja, apenas um tratamento formal.
IV. A moral da história poderia ser substituída pelo provérbio “Diga-me com quem andas e te direi quem és.”, sem prejuízo à proposta reflexivo-interpretativa do texto.
De acordo com o texto e contexto, está correto o que se afirma: