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A BORBOLETA PRETA
1º No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. (...) A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu _____________ de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto branco com que, uma vez posto, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
2º Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça¸ com dor de consciência, tomei-a na palma da mão e fui _________ no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
3º Também por que diabo não era azul? Disse comigo.
4º E esta reflexão, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul ........... todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas”. A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, _____________ que o melhor modo ...... agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou ...... pedir-lhe misericórdia.
5º Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.
(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo. FTD, 1992.)
Analise as afirmativas quanto ao gênero dos substantivos retirados do texto: I - “borboleta” é um substantivo feminino, uniforme e epiceno.
II - “criador” substantivo masculino biforme por ter duas formas para o feminino – “criadora” e “criadeira”.
III - “homem” substantivo masculino biforme e heterônimo.
Quais afirmativas estão corretas?