///
Lugar-comum
1º [...] Para as crianças, nada existe senão ao pé da letra – e não duvido que, diante desta expressão, pensassem logo numa letra com pés, dedos, unhas e sapatos. Ir num pé e voltar noutro, por exemplo, para o menino que eu fui, era uma façanha tão difícil como sair pela rua pulando numa perna só, depressa para atender a urgência contida na ordem de minha mãe.
2º Assim também, meu pai mandar que o empregado desse um pulo na cidade me parecia uma ordem extravagante, como ordenar que o pobre homem fosse até o centro da cidade, juntasse as pernas, desse um pulo no ar diante dos transeuntes e voltasse para casa. Nunca me conformei com a idéia de virar um palito se comesse pouco ao jantar, de virar uma bola se comesse muito e, em ambas as hipóteses, ficar de cara amarrada porque não queria obedecer. Amarrar a cara evidentemente só seria possível com auxílio de cordas e, e se nela houvesse um só pingo de vergonha, ela me escorreria pelo rosto como uma lágrima até pingar no chão.
3º Mas a fé removia montanhas – o que bastava para fazer desaparecer o morro atrás do qual o sol se escondia. Um dia ouvi uma visita dizer que tinha feito das tripas coração, o que constituiu um sério abalo para as minhas ainda confusas noções de anatomia. Ficar com o coração na mão era coisa que só muito mais tarde vim a entender – e reconheço que, desde então, isso passou a me acontecer com alguma frequência.
4º Começava a penetrar os mistérios da linguagem figurada e ia me ingressando, submisso, no mundo convencional que me deixavam como herança. Ideias que só se impõem pelo fato de serem repetidas; hábitos que se formam pelo fato de serem impostos. Palavras cuja significação original há muito se perdeu e que são usadas como rebanhos pacíficos. Gestos de valor convencionado como o das moedas, para o comércio da convivência.
5º Um dia descobriria com espanto uma simples verdade, como o céu é azul, o oceano é imenso, a noite é bela. E o céu passava a ser azul só para mim, o oceano era imenso porque eu o queira assim, a noite era mais bela que o dia porque era só minha, de mais ninguém. As idéias herdadas iam sendo reaprendidas, iam sendo desenterradas do lugar-comum como numa recriação. Era o que eu precisava para me tornar um escritor [...]
SABINO, Fernando. Lugares-comuns. 3. ed. Rio de Janeiro, Record, 1984. p. 33-5.
Assinale a alternativa em que o substantivo quanto ao gênero é comum de dois: