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Mais vida, menos tela
Eu sei que é difícil, mas é preciso, urgentemente, fazer com que as nossas crianças tenham menos contato com as telas e mais contato com a vida real. Eu sei. Você chega cansado, às vezes frustrado, com as olheiras de quem sobrevive — e não vive. Mas, ainda assim, é preciso.
As telas, essas janelas luminosas que piscam, vibram e engolem o tempo, também têm o seu valor. Claro que têm. Não se trata de demonizar o mundo digital — ele nos conecta, nos informa, nos liberta em muitos aspectos. Mas, ao mesmo tempo, ele também aprisiona. E o mais cruel? Faz isso em silêncio, com sorrisos, cores vivas e efeitos sonoros.
O filósofo francês Jacques Ellul alertou que “a técnica é o conjunto de métodos racionalmente elaborados e que apresentam, em um dado estágio do desenvolvimento, a maior eficácia possível em todos os campos da atividade humana” (A Sociedade Tecnológica, p. 21). Ou seja: ela não pede licença — ela se impõe. E, quando tomamos como naturais os seus avanços, sem questionar o que estamos perdendo, viramos reféns bem-comportados de um sistema que apenas simula liberdade.
Lembra quando a infância era feita de terra nas unhas, histórias contadas de improviso, cabanas feitas com lençóis velhos e cadeiras da sala? Quando um graveto era uma espada e uma poça d’água, um oceano? Não havia tutorial para brincar. A imaginação era o GPS, e a rua, o infinito.
Hoje, nossas crianças mal sabem o que é entediar-se. E isso é perigoso. Porque é no tédio que nasce a criatividade. É no vazio que a alma cria forma. Contar histórias aos filhos — como faziam os nossos avós — não é um ato de entretenimento: é um ritual de transmissão de mundo. Branca de Neve, Os Três Porquinhos, João e o Pé de Feijão… não eram apenas contos; eram metáforas de vida, lições cruas disfarçadas em fábulas, pedagogia ancestral. Hoje, em vez da voz do pai ou da mãe narrando um conto à meia-luz, temos youtubers gritando em vídeos editados como se todos sofressem de déficit de atenção. O tempo da infância está sendo comprimido. Com um dedo, as crianças pulam de um vídeo para outro, de uma emoção à seguinte. Sem pausa. Sem elaboração. Sem digestão.
Ellul também nos advertiu sobre isso: “A ciência revela tudo aquilo que o homem havia considerado sagrado. A técnica se apropria disso e o escraviza.” (A Sociedade Tecnológica, p. 142). O que era humano, afetivo, simbólico — foi mecanizado. A infância também corre esse risco.
Claro, as telas são tentadoras. São babás eficientes, baratas e incansáveis. Mas o custo disso? É a terceirização da infância. Quando deixamos nossos filhos à mercê do YouTube, do TikTok ou dos joguinhos viciantes, não estamos apenas economizando energia. Estamos, sem perceber, ensinando a eles que o mundo real é entediante demais para merecer atenção. Estamos empurrando nossos filhos para o precipício da passividade.
A infância não pode ser terceirizada. Ela precisa ser compartilhada. Não basta colocar comida no prato e uma escola no currículo. É preciso estar junto. Sentar no chão. Inventar vozes para os personagens. Jogar memória. Brincar de mímica. Ser bobo. Ser vulnerável. Ser pai e mãe de verdade — não apenas administradores de tarefas. Sei que você trabalha demais. Que o trânsito é um inferno. Que a vida cobra boletos e paciência em prestações mensais. Mas também sei que seu filho não precisa de um iPad novo. Ele precisa de você. Não de um “você” perfeito, mas de um “você” presente. E, se continuar assim — com a criança presa à tela por horas e mais horas, sem filtro, sem pausa, sem sentido —, bem, é bom já ir se acostumando com o olhar vidrado, a fala rápida, o tique nervoso.
Porque, daqui a pouco, seu filho vai estar tão dependente da dopamina digital quanto um viciado em crack está da próxima pedra. E, acredite, é isso que o algoritmo quer: dependência.
Sim, estou sendo duro. Mas a verdade raramente é delicada.
E antes que você pense que este texto é apenas sobre crianças, deixo o espelho: isso vale para você também. O adulto que não larga o celular para jantar. O que se perde no feed e não vê o tempo passar. O que troca um pôr do sol real por uma foto de pôr do sol em Bali — com filtro. O que vive menos a vida do que documenta a tentativa de vivê-la.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao falar da modernidade líquida, escreveu: “As relações humanas são agora como líquidos: fáceis de moldar, mas difíceis de manter em qualquer forma estável.” (Modernidade Líquida, p. 8). E o que é a internet senão a liquidez absoluta do afeto? A presença evaporada. O abraço substituído por emojis. Um dia, quando seu filho estiver grande, ele talvez não lembre do presente caro que você deu. Nem da série que assistiram lado a lado, sem trocar uma palavra. Mas ele vai se lembrar — e com uma dorzinha no peito — do dia em que você desligou o celular, se abaixou e virou um monstro da história que ele inventou. Vai lembrar da sua voz tremendo ao fazer a voz do lobo. Da risada que escapou quando o castelo de almofadas desabou.
Você não precisa ser mágico. Só precisa estar. Estar ali, inteiro. Sem Wi-Fi. Sem filtro. Presente, feito o tempo que não volta mais.
Porque, no fim, o que eterniza a infância não são as telas. São os toques. Os silêncios.
E os olhos que dizem: “Eu estou aqui. E você vale todo o meu agora.”
No contexto da expressão “tentativa de vivê-la”, quanto à colocação pronominal, a posição do pronome la em relação ao verbo viver configura: