///
Era uma vez uma menina que não sabia qual o seu lugar no mundo. Ser uma mulher prendada era o que ensinavam às suas primas e amigas; ela queria destapar o poço que rumorejava dentro de si — e não tinha com quem falar sobre isso.
Nunca seria uma dessas meninas que bordavam lindamente, aprendiam a cozinhar e tocavam piano muito melhor do que ela jamais conseguiria. A música abria-lhe os caminhos do maravilhoso, mas os dedos eram indisciplinados, parecia desprovida de capacidades que qualquer outra menina manejava sem esforço.
Com a melhor das intenções, tentavam adestrá-la: ela, porém, teimava em mirar-se no inenarrável, e muitas vezes não sabiam o que fazer com uma criança assim.
Tinha momentos de euforia, divertia-se imensamente com algum detalhe sem importância, mas também pressentia que tudo era efêmero. Nas horas felizes, de repente sentia a punhalada: tudo isso ia acabar. Um dia, logo ou no futuro, ia acabar. Todos nós íamos acabar — pior ainda — no negrume da morte.
Não sabia o que na madureza aprenderia: que todas as coisas quando acabam são substituídas por outras; que a vida não se reduz, mas cresce, e é em tudo um milagre.
A palavra prenda, derivada de prendada, utilizada no texto, é um exemplo de qual fenômeno semântico?