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BICHO DE ESCOLA
João Luís Ceccantini
Desde que me conheço por gente, fui um bicho de escola. Diferentemente de tantas pessoas que vivenciaram a experiência escolar de uma forma negativa, sempre me senti à vontade nesse espaço, reconhecendo-o como meu habitat natural. Talvez tenha contribuído para essa percepção uma trajetória peculiar, que fez com que, até os 21 anos, eu tivesse estudado em 17 escolas... Se for levado em conta que comecei minha jornada migratória aos 4 anos de idade, a aritmética mais elementar demonstra que, nesse período, foi uma escola por ano de vida.
A alma cigana de meu pai e o espírito intimorato de minha mãe, que não hesitou em acompanhá-lo em suas andanças pelo Brasil, permitiram que eu estudasse em escolas com os mais diferentes perfis, da capital paulista ao sertão de Goiás; do interior mineiro ao coração de Mato Grosso. Se isso não me transformou automaticamente num especialista no assunto, ao menos levou a que, com o passar do tempo, eu me perguntasse com frequência o que haveria de tão sedutor nessa instituição, a ponto de nela eu me embrenhar, para nunca mais sair – seja na condição de aluno, seja na de professor. Foram escolas públicas e particulares; grandes e pequenas; desconhecidas e de renome; cosmopolitas e sertanejas; exigentes e fracas; conservadoras e moderninhas. No conjunto, uma amostragem a toda prova.
A situação repetida tantas vezes do primeiro dia de aula numa escola onde eu não conhecia ninguém, o que, de praxe, seria o horror dos horrores para qualquer criança ou jovem, não deixou, entretanto, maiores impressões em minha memória. É provável que, na vida nômade que eu levava, isso não passasse da mais pura rotina. Do extinto “parquinho”, como se chamava à minha época o Ensino Infantil, até uma das três universidades por onde, claudicante, passei, tudo compôs o quadro da imensa floresta educacional que me abrigou, em nada assustadora.
O que, de fato, deixou impressão indelével em minha memória, e que, hoje, a distância, emerge com vigor dessa experiência ímpar, não foi a variedade de instalações das escolas, colegas, metodologias, atividades, livros adotados, situações prosaicas ou tragicômicas vividas. Sobressai, com maior força, sim, a figura de alguns professores que conheci e aos quais sempre me vejo voltando ao longo da vida, nos mais diferentes contextos.
Está registrada de modo muito vívido em minha memória ainda hoje a imagem da professora da primeira série primária, compondo um tipo característico de São Paulo do fim dos anos 60. Figura delicada, conseguia tornar palatável até a ingrata tarefa de copiar todo dia, no caderno, as notícias da primeira página de um jornal sisudo ou mesmo o nome completo dos generais da ditadura militar...
Mas não apenas a professora da primeira série permaneceu. Também outros mestres, de outros níveis de ensino, continuam bem presentes em meu espírito até hoje. Não importa a que área do conhecimento estivessem vinculados, quão áridos fossem os conteúdos com que tivessem de lidar ou as condições adversas enfrentadas, a maneira subjetiva de se relacionar com o objeto que elegeram, como centro de sua vida profissional, foi muito marcante para mim. Pessoais, intensos e generosos, impregnaram de sentidos meu cotidiano escolar, levaram-me a imitá-los, de forma mais ou menos consciente, e, sobretudo, nunca permitiram que na escola, ou melhor, nas minhas inúmeras escolas, eu me sentisse um estranho no ninho.
A posição do pronome oblíquo é facultativa em: