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Entre a lama e os sonhos
Álcool, armas e mulheres. Estar longe dessa tríade era a condição para entrar no grande garimpo de Serra Pelada, no Pará, no início da década de 1980. A recompensa para esses homens ambiciosos eram pepitas de ouro do tamanho de uma bola de golfe. Isso não significava a paz celestial, porém. Perto dali, em Vila Trinta, os primeiros 30 mil homens que chegaram, assim como todos os demais que os seguiram, cederiam a todas as tentações.
Sobre a visão dessas pessoas durante seus trabalhos, o reconhecido fotógrafo Sebastião Salgado assim se referiu: “Quem chega lá pela primeira vez confirma uma visão extraordinária e atormentada do animal humano: 50.000 homens esculpidos pela lama e pelos sonhos. Tudo o que pode ser ouvido são murmúrios e gritos silenciosos, o raspar de pás impulsionado por mãos humanas, não uma sugestão de uma máquina. É o som do ouro ecoando pela alma de seus perseguidores”.
Quando se espalhou a notícia de que o metal precioso poderia ser encontrado naquela região, uma multidão logo se apressou para invadir o local. Entre 1982 a 1986, calcula-se que por lá passaram 100.000 homens. A empresa Vale do Rio Doce tinha direitos sobre a lavra, mas acabou sendo indenizada pelo governo dada a invasão maciça do território.
Para conter as ações dos garimpeiros, o Estado passou a controlar o local, que também administrava a venda e compra das jazidas por meio da Caixa Econômica Federal. O preço era pago em dinheiro vivo, mas abaixo do valor real. Claro que havia vendas clandestinas. Contudo, entre as vendas oficiais, contou-se a extração de 56 toneladas do metal.
A corrida pelo dinheiro obedecia a regras determinadas. Cada pequena área do barranco era dividida entre os escavadores, muitas delas foram conseguidas à força e até por meio de documentos. No auge da extração, a região era dividida em 30 partes e havia uma hierarquia estabelecida na organização do trabalho.
O “dono” do barranco era o capitalista; abaixo dele, vinha o meia-praça, que recebia comissões, e não salário, e era encarregado de indicar onde seriam as escavações; na linha descendente, vinha os cavadores, apontadores e os apuradores - chamados também de formigas -, eram eles que cavavam até encontrar as rochas. Em 1992, o governo fechou o garimpo, cuja exploração foi reiniciada em 2002, agora mecanizada.
Leituras da história, ano 6, ed. 127, editora Escala. 2019.
No texto, há a presença dominante de