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O Censo revelou um Brasil que nem todos conhecem
Por Gabriel Sant’ana Wainer
O IBGE divulgou a lista de nomes do Brasil e o resultado é uma espécie de retrato coletivo de um país inteiro. Por mais que as modas tentem nos convencer do contrário, ainda somos, no fundo, um povo de Marias, Josés e Silvas.
Só de Marias e Josés são mais de 17 milhões, mais do que toda a população do Rio Grande do Sul. Entre os sobrenomes, a família Silva domina o país com 34 milhões de brasileiros que carregam no RG o eco de uma floresta e o peso de uma história.
Silva vem do latim, significa “mata, floresta”. Era o nome dos portugueses que viviam perto do mato e também o sobrenome imposto a escravizados quando batizados, sem direito ao seu nome original. Era uma forma de apagamento: perder o nome para ganhar uma nova identidade que começava a outra terminava.
Santos veio da devoção ou da tentativa de purificação. Era dado a quem nascia no Dia de Todos os Santos ou a quem precisava apagar o passado aos olhos da Igreja. Oliveira, por sua vez, é a árvore bíblica da paz que virou nome de famílias católicas e tradicionais. Pereira é o mais literal: vem do pé de pera e foi adotado por muitos cristãos-novos de origem judaica perseguidos em Portugal. O Brasil foi o lugar a árvore virou abrigo.
Cada um desses nomes carrega séculos de deslocamento e adaptação. É curioso pensar que a nossa árvore genealógica nasceu de uma floresta de Silvas, que o país inteiro se espraia entre Santos e Souzas, e que o sangue de tanta mistura ainda responde, no cartório, por apenas alguns sobrenomes.
E, no entanto, o mesmo censo que confirma nossa tradição revela também nossa invenção. Há Xandersons, Queidsons, Karmilenes — nomes que parecem brincadeira de corretor automático, mas são verdadeiros. Também existem 28 pessoas de nome Senna e 77 de sobrenome Pastel.
No Distrito Federal, são 80 Lulas registrados. Entre o sagrado e o profano, entre o altar e a gozação, o brasileiro continua batizando os filhos como se estivesse escrevendo uma crônica sobre si mesmo.
Mas talvez o dado mais bonito seja o menos visível. Mesmo repetindo os mesmos nomes, somos todos diferentes. Cada Maria reinventa seu modo de ser Maria. Cada José tem a própria história. Cada Silva carrega um Brasil distinto no CPF.
Os nomes mais comuns não falam de falta de criatividade, falam de continuidade. De memória. De resistência. Eles contam como o Brasil, apesar das modas, das importações e dos modismos, ainda se reconhece em algo ancestral. É uma forma de fé e de pertencimento.
Talvez o país não saiba exatamente vai. Mas, olhando o Censo, dá pra dizer, com alguma certeza, que o Brasil sabe exatamente como se chama.
Assinale a alternativa que apresenta uma palavra que poderia substituir corretamente a forma verbal “se espraia” no trecho a seguir sem alterar o sentido original: “que o país inteiro se espraia entre Santos e Souzas”.