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Quando eu era criança, meu pai me levava ao terraço de um prédio no centro de Caxias, na rua Pinheiro Machado, onde funcionava um hotel. O dono, um homem curioso e apaixonado pelos mistérios do céu, mantinha ali um grande telescópio. Lembro das noites em que subíamos juntos, meu pai e eu, em silêncio, para procurar Saturno, as Três Marias, observar a lua ou ver alguma estrela cadente. Foi assim que o universo entrou no meu imaginário: como fascínio, mistério, poesia e contemplação.
E eu continuo achando isso lindo. Ainda acredito que pode haver vida além da Terra. Mas essa vida — se existe — não é nossa. O que me incomoda é essa mania que o ser humano tem de agir como se tudo no universo lhe pertencesse, como se o brilho das estrelas fosse um convite ao domínio.
Não é contra a curiosidade que eu falo. É contra a ganância. Contra esse impulso de querer o que é inalcançável. Há algo profundamente inconsciente — quase predatório — em querer possuir o cosmos sem antes aprender a amar o chão que nos sustenta.
Olhar para o céu, decifrar os sinais dos astros, seguir as fases da lua — tudo isso antecede a própria ideia de ciência. Antes da comprovação, havia a intuição. Ezra Pound dizia que os poetas são antenas da raça: sentem antes de entender. Foi Olavo Bilac, o poeta das estrelas, quem escreveu os versos de Via Láctea. Neles, sugeriu que bastaria sensibilidade para ouvir as estrelas. Hoje, sabe-se que as estrelas vibram, emitem sons — sons que os instrumentos captam, apenas para confirmar o que, desde sempre, alguém já pressentia.
Contudo, em vez de escutar as estrelas, muitos preferem silenciá-las — abafam o mistério com cálculos, trocam o assombro pela pressa de partir. Há quem sonhe com Marte como se fosse uma alternativa, caso a Terra falhe. Mas o que vejo é uma lógica da tecnologia a serviço da fuga. Talvez, para além da medida, reste algo que só o espanto alcança.
Apesar dos desafios da Terra, meu desejo não é viver em outro canto do universo. É aqui onde desejo permanecer. Sim, há fome, guerras, injustiças. Talvez por isso mesmo, nenhum impulso de fuga me comova diante das viagens rumo ao espaço. Porque cuidar da Terra exige mais coragem do que abandoná-la.
Ficar, reparar. Replantar. Reaprender a ouvir as estrelas — não para conquistá-las, mas para simplesmente contemplá-las.
Talvez o verdadeiro futuro esteja aqui mesmo, no gesto de olhar o céu ao lado de quem amamos. E lembrar que a Terra é o melhor lugar para se viver.
Considerando as funções sintáticas dos pronomes oblíquos, analise as assertivas a seguir:
I. Em “como se tudo no universo lhe pertencesse” (l. 09), o pronome oblíquo tem a função sintática de objeto indireto da forma verbal “pertencesse”.
II. No trecho “aprender a amar o chão que nos sustenta” (l. 13), o pronome oblíquo é um objeto direto da forma verbal “sustentar”.
III. Em “para simplesmente contemplá-las” (l. 29), o pronome oblíquo é um objeto indireto da forma verbal “contemplar”.
Quais estão corretas?