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O morador
Por Rubem Braga
De repente me ocorre que estou cansado de morar nesta casa. Durante demasiados anos vivi de casa em casa, de quarto em quarto, de cidade em cidade, para que não sentisse esse desgosto sutil de estar parado na mesma esquina, embora quieta, embora boa. Minha vida aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra, sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.
Aos poucos me levantei. As caras permanentes da rua foram se fixando no fundo de meus olhos. Um dia encontrei, no centro da cidade, um empregado do armazém da esquina e achei tão absurdo vê-lo ali como se, entrando em um Ministério eu encontrasse, no gabinete, o gato ruivo de minha vizinha. Custei a reconhecer a cara familiaríssima do rapaz. Seria, talvez, um garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui descobrir. No dia seguinte ele passou sob a minha janela, como passa várias vezes por dia, em sua bicicleta, e tive um sobressalto. Também já me aconteceu cumprimentar, distraído, na saída de um cinema, uma moça loira de pele muito queimada; cumprimentei-a sem saber exatamente quem era, mas sentindo que era uma pessoa muito conhecida, talvez irmã de algum amigo. Ela respondeu de um modo meio reticente, meio surpreso. Fiquei embaraçado. Depois, descobri que não tenho relações com essa moça, apenas a conheço de vista, da minha rua, onde nunca me ocorreria cumprimentá-la.
O mecanismo da cordialidade humana não é muito simples. Sempre corro o perigo de cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: antes de me dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida. Mas, a rua subitamente me cansa. Parece que sou escravo de seus hábitos. Sei precisamente a hora em que a “vaca leiteira” aparece e as empregadas das casas saem apressadas, de latas e garrafas na mão, para a pequena fila de leite; conheço todos os pregões e os carteiros, os meninos que esperam o ônibus do colégio, o apartamento que fica aceso ao longo das madrugadas. Conheço até alguns automóveis e os fregueses do boteco perto do mar, o idiota com quem os moleques mexem, a mocinha tão bonita que de repente ficou magra, triste, esquisita... Sem indagar, sem na realidade saber o nome de ninguém, vou sem querer considerando tudo isso como parte de minha própria vida. Seria doce mudar, de casa ou de país.
Sei, por experiência, que tudo isso que parece tão estabelecido em minha vida se diluirá com facilidade e até o número da casa e do telefone serão esquecidos, e toda essa gente e todas essas coisas se apagarão em lembranças remotas. Como sempre, voltando um dia por acaso a esta esquina, é possível que eu tenha alguma saudade, mas bem maior será o secreto prazer de pensar que me livrei de tudo, das ternuras e aborrecimentos desta rua, que tudo ficou para trás como uma estação sem interesse, apenas mais uma estação, nesta viagem em demanda de coisa alguma.
No trecho “Minha vida aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra, sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.” (l. 03-05), qual figura de linguagem está presente no trecho e qual é o seu efeito de sentido?