///
Capricho do propósito
Por Fabrício Carpinejar
— Ninguém está olhando.
Foi assim que minha mãe me ensinou a escrever em casa, aos 6 anos, depois que recebi um diagnóstico de retardo mental. A escola já tinha jogado a toalha para a minha alfabetização.
Éramos ela e eu, formávamos uma ilha nessa tarefa. Ela tirou licença do trabalho para me atender nos dois turnos. Acreditava tranquilamente no meu talento, eu percebia pelos seus olhos doces e amendoados sobre as folhas.
— Não tenha pressa, ninguém está olhando, siga seu instinto — ela me orientava.
A mãe aliviou os meus ombros da pressão, da competição da turma, do medo de não corresponder às expectativas.
Ela contava com a certeza do meu potencial, antevia que o processo apenas aconteceria com um ritmo e estímulos diferentes do padrão.
Eu errava na sala de aula não porque não compreendia, mas porque me desesperava com as respostas dos outros – rápidas e automáticas. A facilidade dos colegas se transformava na minha dificuldade.
Durante dois meses, a figura materna criou jogos educativos para me dar prazer na hora de decifrar as sílabas. A alegria da descoberta não deveria ser imposta ou invasiva. Não poderia ser abolida pela obrigação de saber.
Se eu rastejava, de repente, passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas. Nem engatinhei, nem andei, tamanha a absorção do processo pedagógico. Engolia alturas de parágrafo em parágrafo.
Em vez de soletrar ou gaguejar, comecei a ler de um golpe, num único fôlego. A mãe se espantou com o meu clique. É como se ela tivesse apertado algum botão dentro de mim, ajudando-me a emergir devoto da língua portuguesa.
Para quem estava fadado ao analfabetismo por limitações cerebrais, ter se tornado escritor é, mais do que uma ironia do destino, o capricho do propósito, a prova maior de nossa capacidade de superação.
Não nascemos nos amando. É alguém que nos serve de espelho. É alguém que nos inspira a nos amar. Para nascer o amor-próprio, basta que uma só pessoa confie em nós.
Por mais que eu me ame, nunca chegarei aos pés do amor que minha mãe sente por mim.
Assinale a alternativa que indica a conjugação da palavra sublinhada “contava”, no mesmo tempo verbal, se o pronome “Ela” for substituído por “Elas” no trecho a seguir: “Ela contava com a certeza do meu potencial”.