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Depois dos 80 anos dos pais
Por Fabrício Carpinejar
01 Depois que os pais completam oitenta anos, não se deve mais brigar com eles. Não se
02 deve mais querer mudá-los ou ter razão. Eles são daquele jeito, entenda e respeite.
03 Tomei essa decisão definitiva. Não discuto mais com os meus pais. Não importa o que
04 aconteça, não importa se concordo ou discordo deles, não importa se passam pano para um
05 irmão que errou feio, não importa se me posiciono contra a sua orientação política ou sua opinião
06 estapafúrdia, não importa se preciso tolerar disparates do quanto o passado era melhor.
07 Eu me calo na mais funda paciência. Não me precipito, não permito que a ansiedade vire
08 falta de tato, não aceito que a pressa desemboque na grosseria, não facilito ressentimentos.
09 Eu transformei o meu silêncio em cuidado. Apenas observo e agradeço a bênção.
10 Minha mãe tem 84 anos. Meu pai tem 85 anos. Nenhum desentendimento será maior do
11 que o meu amor por eles. O amor prevalece e reina pela paz.
12 Tudo com que eu poderia me indispor, tudo o que eu poderia apontar, tudo de que eu
13 poderia reclamar: já fiz antes. Minha carência da infância acabou, minha revolta da adolescência
14 findou, sou adulto para não ser mais levado pela mão nervosa da passionalidade.
15 Agora é o momento da cristalização de nossos laços, a colheita daquilo que foi plantado,
16 a reverência aos dois pelos exemplos oferecidos ao longo de riquíssima existência.
17 Assim como os pais se aposentam do serviço, também merecem a aposentadoria de
18 nossas críticas, de nossas restrições, de nossos senões.
19 Deixo que errem, deixo que bradem, deixo que transpareçam insatisfações, deixo que
20 xinguem as minhas limitações e meus defeitos. Eles têm o direito de ficar de mal comigo, eu não
21 tenho mais esse privilégio.
22 Eu me farei de louco quando eles se mostrarem estremecidos, não aprofundarei o mal-
23 estar, esquecerei possíveis tensões, seguirei adiante, trocarei de assunto, confiarei a eles a
24 minha risada mais honesta de quem acolhe e reparte as imperfeições.
25 O que me cabe é me manter próximo, atento e acessível a qualquer necessidade. Ninguém
26 escuta pedido de socorro permanecendo longe.
27 Darei presentes, pagarei almoços e jantares, surgirei imediatamente sempre que for
28 chamado. Não se brinca com o tempo. Não se debocha do destino. Todo dia é uma eternidade
29 para quem ultrapassou os oitenta anos.
30 O que não desejo, de modo nenhum, é perdê-los durante uma ruptura emocional, estando
31 brigado, estando sem falar com eles. A culpa costuma aparecer nas nossas distrações, o remorso
32 se aproveita dos nossos pequenos atos egoístas de isolamento. Uma distância momentânea hoje
33 é fatal.
34 Você julga que interrompeu a comunicação ocasionalmente e não percebe que se trata de
35 um instante decisivo. Jamais vou parar de conversar com eles, jamais cairei na tentação da birra,
36 jamais agirei com chantagem, jamais bloquearei o contato como se fosse um ex-relacionamento,
37 jamais ignorarei alguma ligação.
38 Não é medo da morte, é medo da vida, de não valorizar a vida que resta. Será assim até
39 nosso último dia juntos, até sermos cobertos pela saudade.
Considerando o fragmento “O amor prevalece e reina pela paz”, retirado do texto, assinale a alternativa que apresenta a figura de linguagem que predomina no trecho.