///
Muitos jovens abandonam a escola por não se sentirem parte do espaço escolar e não se verem representados nos conteúdos abordados em sala de aula. Ao pensar a educação pela perspectiva do enfrentamento do racismo estrutural, a escola ajuda na valorização da identidade e das trajetórias das pessoas negras que pisam em seu chão. “Uma educação antirracista compreende que vivemos em uma sociedade na qual desde muito cedo todas as crianças, negras e brancas, fazem um curso de racismo. Desde muito pequenininhas, as crianças negras aprendem que têm uma cor. As crianças brancas, por outro lado, crescem num ambiente em que percebem que a cor não é tratada, mas acreditam numa suposta superioridade. Isso precisa ser enfrentado”, diz Waldete Tristão, doutora em educação pela Universidade de São Paulo.
A Lei nº 10.639, de 2003, alterou dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/1996), documento que organiza toda a educação básica brasileira. Fruto da articulação de movimentos sociais, principalmente do Movimento Negro, o texto da lei aponta que os conteúdos trabalhados na escola devem incluir “a luta dos negros no Brasil, a cultura negra e formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinente à História do Brasil”. Questões importantes sobre como tratar do período de escravidão, a contribuição da população negra, o mito da democracia racial, os estereótipos e as afirmações equivocadas sobre os negros no país são reforçadas pelo documento.
Promover esses conteúdos, apresentando a produção artística, intelectual e social negra, é importante para que esses jovens criem novas referências. Isso tudo ajuda na autoidentificação como potências e como indivíduos capazes. “Falar sobre a contribuição do povo negro é falar de uma existência. É importante lembrar que há genocídio de jovens e adolescentes negros no Brasil. Por tudo isso, afirmar a existência de crianças e jovens negros é urgente, e uma educação antirracista faz muita diferença nisso”, afirma Mighian Danae, professora da Universidade Internacional da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira. A partir das diretrizes da lei, escolas e professores devem construir juntos um projeto político-pedagógico que promova uma verdadeira ampliação dos currículos, considerando a diversidade cultural, racial, social e econômica presente na sociedade brasileira.
O envolvimento das famílias com as rotinas da escola é muito importante para o fortalecimento de um ensino antirracista. Quando se fala de educação, os ambientes escolar e doméstico se complementam e, por isso, quanto mais envolvidos com o dia a dia dos jovens, mais benefícios todos colhem. No Colégio Equipe, da rede privada de São Paulo, um grupo de pais e alunos formou uma comissão antirracista para discutir a temática racial na escola. Em 2020, o grupo se mobilizou e articulou uma carta, enviada à direção, que pedia a ampliação da representatividade negra em toda a estrutura organizacional e docente do colégio, bem como a revisão do currículo escolar, apontando a importância da cultura africana e afro-brasileira, além de pedir a estruturação de uma agenda antirracista, que discuta o racismo estrutural e outras formas de preconceitos. “A comissão nos ajudou e tem ajudado a ter uma dimensão maior sobre o racismo. Para nós, essa iniciativa só teria um impacto maior com o envolvimento das famílias. O diálogo com o colégio tem sido promissor, aberto e propositivo”, diz Claudia Rodrigues, presidente da União Brasileira de Mulheres da cidade de São Paulo, mãe de aluno e integrante da comissão antirracista do Colégio Equipe, de São Paulo. A gestão do colégio convidou a comissão para participar das reuniões pedagógicas, junto com a equipe docente. “Nosso objetivo é atuar no enfrentamento do racismo estrutural de forma coletiva, e esse é o único caminho. O envolvimento da comunidade escolar é benéfico para todos, e os aprendizados dessas ações saem dos muros da instituição”, destaca Cláudia.
A palavra “antirracista” está escrita corretamente. O mesmo pode ser afirmado em relação à grafia de: