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Na vida normal, é fácil escapar de situações que gerem algum problema, e sempre há uma autoridade quem invocar em caso de conflito: o síndico do prédio, o RH da empresa, a diretora da escola.
Num BBB, não. Você precisa resolver tudo na raça. E o ambiente estimula os conflitos, já que os participantes ficam em competição constante.
Quando o pessoal entra na casa, tudo é novidade, claro. É como o primeiro dia da escola ou um novo emprego: nossa atitude é analisar o ambiente. Depois, procuramos semelhanças entre as pessoas, e ficamos amigos de quem despertou nossa empatia. Normal.
Então começa a análise política. O jogo ali é equilibrar o desafio de eliminar participantes do jogo e evitar que você seja esse eliminado. Dessa forma, não há como fazer amizade com todo mundo e ficar por isso mesmo. Os participantes precisam detectar quem tende a colaborar com eles, e identificar possíveis traidores. E aí criam-se as panelas. “Todos nós buscamos, de alguma maneira, posicionamentos dentro da vida social”, diz Marcelo Santos, professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Dentro da casa, alguns participantes são submetidos a castigos, tipo o do “monstro”: a produção escolhe uma fantasia e, em alguns momentos aleatórios do dia, são obrigados a pagar um mico, como uma dancinha. Essa brincadeira, assim como as da vida real, é uma via de mão dupla: quem não liga para o vexame se diverte; mas pode e vai deixar vulnerável quem se sentir desconfortável.
Algumas dinâmicas dentro da casa são feitas para turbinar certos tipos de comportamento. As festas, regadas a bebidas alcoólicas, servem para que as pessoas se exponham. Já as provas de liderança e outras atividades com prêmios funcionam como um lembrete de que aquilo é uma competição, e mantêm o nível de rivalidade, e de estresse, lá em cima.
“Em situações de estresse, o nosso organismo se prepara para dois modos: lutar ou fugir”, explica Cláudia Oshiro, professora de psicologia da USP. No Big Brother, não há como fugir – e tentar conviver num ambiente aversivo causa alterações de humor. Os participantes se tornam facilmente irritáveis. Então coisas banais, como uma cama desarrumada ou uma louça suja, se transformam em brigas homéricas – que são uma delícia de assistir.
“Existe a crença de que, em uma situação de grande pressão, as ‘máscaras vão cair’, e o sujeito vai revelar quem realmente é”, diz Bruno Campanella, professor de comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), que, na década passada, estudou como fãs brasileiros consumiam esse tipo de entretenimento.
A chave é que nós, humanos, somos animais sociais. Sentimos prazer quando outro humano “revela sua personalidade” – já que isso nos dá ferramentas para conviver com esse outro humano. Não importa que o outro esteja atrás de uma tela de TV: temos o instinto de sentir prazer ao ver as máscaras caindo.
Outro ponto essencial num reality é o conceito de “aversão à perda”, identificado pelo psicólogo americano e Nobel de Economia Daniel Kahneman. Seus experimentos mostram que a dor por uma perda é maior que a alegria por uma vitória. Traduzindo isso em termos de BBB: a dor de ser indicado para o paredão é maior do que a alegria de sobreviver ao paredão. Os brothers, então, farão de tudo para não passar por tal constrangimento. Como somos animais sociais, isso significa que não mediremos esforços para tecer as melhores alianças – o que alimenta o estresse geral, e a atratividade do programa.
Assinale a alternativa que indica o número correto de orações que compõem o período a seguir, retirado do texto: “Sentimos prazer quando outro humano “revela sua personalidade” – já que isso nos dá ferramentas para conviver com esse outro humano”.