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A morte do príncipe Philip aos 99 anos, em abril de 2021, não chamou atenção apenas pelo evento em si, mas pela causa oficial: a certidão de óbito assinalava que o marido da Rainha Elizabeth II havia falecido de “velhice”. O chefe da equipe médica da realeza britânica, Huw Thomas, não se enganou no laudo. Ele usou uma mudança aprovada em 2019 pela Organização Mundial da Saúde para a última versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, a CID, que diz que a velhice é doença. A última versão só entraria em vigor este ano, mas antes de começar a valer, causou forte reação de médicos e grupos de idosos, principalmente no Brasil.
Para quem não está familiarizado, a CID é um grande manual que elenca os tipos de doença e seus sintomas para servir de diagnóstico, base de consulta e padronização de enfermidades — ela é usada em 115 países. A importância da padronização para os sistemas de saúde no mundo é imensa. “Se a Covid-19 não estivesse na CID e fosse tratada de forma diferente em cada país, não saberíamos que era uma pandemia”, explica Yeda Duarte, enfermeira e professora da Escola de Enfermagem e da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Mas o espanto maior se deu pela especificidade. “Ninguém morre de velhice. Alguém morre de infância ou adolescência?”, diz o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil e ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da OMS. Pode parecer uma discussão pitoresca, mas não é. O debate envolveu até um lobby poderoso de gigantes da tecnologia, como Amazon e Google, e do pesquisador de Harvard, David Sinclair. Com um discurso persuasivo, ele advoga que, sem o reconhecimento da velhice como patologia por parte dos órgãos regulatórios, as pesquisas sobre terapias antienvelhecimento nunca seriam uma prioridade.
Ele recorre à máxima comprovada pela ciência para ser a favor: o envelhecimento é um dos principais fatores de adoecimento. Está envolvido com a escalada de problemas cardiovasculares e o câncer, por exemplo, que lideram o ranking de mortes. Logo, retardar esse processo seria a melhor estratégia na prevenção delas.
Ele não está totalmente errado. Segundo especialistas, o envelhecimento tem, sim, relação direta com algumas doenças. Contudo, eles não acreditam nas boas intenções de Sinclair. “Foi uma tentativa de oficializar um grande mercado de terapias antienvelhecimento com o qual ele se beneficia”, diz Yeda. Também não acreditam que transformar idade avançada em doença, tal qual o diabetes, seja a solução para fazer a ciência avançar. Pelo contrário: seria estigmatizar ainda mais um processo biológico. Doença não é boa para ninguém, mas chegar à velhice, de forma autônoma e saudável, é uma conquista inegável da ciência associada à políticas públicas e de inclusão das últimas décadas. Hoje, ter 60 anos significa uma expectativa de viver, em média, mais 22. Em 1950, mal se chegava aos 50 anos.
E isso não aconteceu considerando que todos nós ficamos “doentes” quando ultrapassamos os 60 anos. “Essa etapa da vida precisa ser valorizada, pois só temos dois caminhos: viver e envelhecer ou morrer antes de envelhecer”, diz a professora da USP. Surpreendeu ainda mais que a atualização da CID veio bem entre 2021 e 2030, na década batizada pela própria OMS como a do envelhecimento saudável, com campanhas contra o etarismo.
Assinale a alternativa que indica palavra ou expressão que NÃO poderia substituir o vocábulo “Também” (l. 30) por alterar a relação semântica estabelecida entre os períodos do texto em que ocorre. Desconsidere eventuais alterações na estrutura da frase decorrentes da substituição.