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O fato de só há pouco Harriet Tubman (1822–1913) ao cinema é tristemente eloquente sobre o racismo em Hollywood e na sociedade norte-americana. Essa mulher negra nascida escrava e medindo pouco mais de metro e meio é uma gigantesca figura da história dos Estados Unidos: depois que fugiu da fazenda em Maryland, na qual vivia e trabalhava com sua família, como propriedade dos donos, na metade do século 19, ela se tornou uma “condutora”, liderando missões de resgate e libertação de cativos como ela.
Até a Guerra Civil Americana (1861–1865), ela resgatou cerca de 70 pessoas, incluindo familiares e amigos. Durante a Secessão, serviu como batedora armada e espiã para o exército da União, comandando uma operação que libertou em torno de 750 negros escravizados. O episódio permanece até hoje como uma das únicas vezes em que uma mulher esteve de uma tropa americana em batalha. Em seus últimos anos, Harriet ainda foi ativista do sufrágio feminino.
Pois essa personalidade tão fascinante quanto obliterada enfim ganhou as telas. Disponível no Brasil na plataforma NOW, o filme Harriet (2019) estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto e concorreu ao Globo de Ouro e ao Oscar – concentrados em sua protagonista, a atriz e cantora inglesa Cynthia Erivo. Indicada nos dois prêmios tanto por sua atuação quanto pela autoria da canção Stand Up, a artista emocionou a plateia durante a cerimônia do Oscar ao interpretar ao vivo a música dos créditos finais do filme. Na tela, Cynthia encarna Harriet com uma entrega apaixonada em sua evolução dramática – da jovem assustada e insegura, que foge quase por acaso do tacão de seus senhores, mulher de coragem e determinação inabaláveis que dedica o restante de sua vida libertar seu povo.
A diretora e roteirista Kasi Lemmons, uma das poucas realizadoras afrodescendentes em Hollywood, concentra a narrativa de Harriet no período anterior ao da Guerra Civil, destacando a transformação de sua heroína, analfabeta e atormentada por visões antecipatórias, em ferrenha abolicionista imbuída de uma ira santa. Em 1849, depois de uma exaustiva e espetacular escapada em direção ao norte – deixando para trás marido, pais e irmãos –, Harriet chega à Filadélfia, entrando em contato com uma rede de ativistas antiescravatura, dedicada a abrigar fugitivos em casas, como a da ativista Marie Buchanon (a também atriz e cantora Janelle Monáe). Com a ajuda dessa organização, Harriet empreende arriscadas incursões para libertar negros escravizados em fazendas – inclusive seus parentes e amigos.
Se, no começo, o filme ressente-se do ritmo de melodrama televisivo imposto à narrativa, Harriet gradativamente cresce à medida que sua protagonista vai tomando consciência da extensão da violência e do ultraje imposto pelos brancos à comunidade negra nos Estados Unidos. Ganhadora dos prêmios Tony e Grammy, por seu desempenho na versão musical de A Cor Púrpura apresentada na Broadway, Cynthia Erivo eleva o longa acima de suas eventuais fragilidades estruturais com sua atuação firme, que realça a dignidade admirável de sua personagem.
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