///
Um basta à ignorância
Seria exagero dizer que a Idade Média livrou-se por completo de um incômodo epíteto que o Renascimento lhe impôs: Idade das Trevas. O problema é que o tal “incômodo epíteto” está de volta. Às avessas. Num processo exatamente oposto ao verificado em relação à Idade Média, a fase mais recente da Idade Contemporânea — ensolarada pela explosão da internet e sua promessa de democracia do conhecimento, pelos avanços científicos e pelo progresso social — tem se convertido em uma nova Idade das Trevas. Sai o Iluminismo (vale dizer, a razão), e entra o obscurantismo (em uma palavra, a insanidade).
Uma das vozes importantes preocupadas com o fenômeno é o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: uma Breve História da Humanidade (2011), Homo Deus: uma Breve História do Amanhã (2015) e 21 Lições para o Século 21 (2018), que, juntos, já ultrapassaram a marca de 20 milhões de exemplares vendidos em todo o planeta, mais de 500 000 deles só no Brasil. Segundo Harari, a ciência encontra-se hoje sob ataque por diversas razões. “Primeiro, _______ as pessoas menosprezam as enormes conquistas que ela trouxe. Um segundo fator é que os líderes populistas estão em alta, e eles são inimigos contumazes da ciência ______ ela expõe verdades que vão contra seus comandos”, disse ele.
É um ataque sem trégua, que se estende a outras conquistas da civilização ocidental — a democracia, a tolerância, o humanismo. Esse bombardeio das sombras sobre as luzes se intensificou de forma assustadora nos dias atuais: pelos motivos que Harari aponta; pela onda de conservadorismo; por certa nostalgia do autoritarismo; pelas teorias conspiratórias; e pelas notícias falsas. Tudo isso é difundido por meio da web, mais especificamente nas redes sociais, muitas vezes o nascedouro e o QG de movimentos que se orientam pelas trevas.
Seria simples demais atribuir o avanço do obscurantismo ao subdesenvolvimento de países como o Brasil. A ignorância ganha terreno sobre o conhecimento também no mundo desenvolvido. Exemplo disso é o atual surto de sarampo na Europa, que registrou quase 90 000 casos da doença nos primeiros seis meses de 2019. Estão por trás do fenômeno questões religiosas e um insano movimento antivacina, que despreza a lógica e as conquistas comprovadas da medicina. “Os adeptos da Terra plana ou os que se posicionam contra as vacinas não são céticos. O ceticismo é uma posição filosófica respeitável, embasada em raciocínios lógicos. Já os totalmente descrentes na ciência, como os terraplanistas, não têm um método, nem raciocínios que se sustentem”, avalia o historiador Gildo Magalhães, diretor do Centro de História da Ciência da Universidade de São Paulo. O método a que ele se refere, o científico, foi desenvolvido ao longo de séculos. Suas conclusões devem ser guiadas por uma série de etapas.
Primeiramente se faz uma pergunta (exemplo: _______ os objetos caem?). A partir do questionamento, cria-se uma hipótese (a teoria da gravidade), ________ se fazem predições, que são testadas em experimentos. No fim, todo o processo é escrutinado pela comunidade científica. Ao longo principalmente dos últimos 300 anos, esse método foi responsável por distanciar, cada vez mais, ciência de crença. “Quem poderia ser contra a razão, a ciência, o humanismo ou o progresso? (…) Esses ideais precisam de defesa?”, indaga o canadense Steven Pinker, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard em seu livro O Novo Iluminismo (2018). E logo se apressa em responder: “Com certeza”. Suas palavras funcionam como um chamamento, uma convocação contra o eclipse do conhecimento — para que a Idade Contemporânea não se transforme, definitivamente, na Idade das Trevas”.
Na hipótese de se substituir têm por tem no seguinte fragmento do texto, quantas outras palavras deveriam obrigatoriamente ser modificadas para efeito de concordância?
Já os totalmente descrentes na ciência, como os terraplanistas, não têm um método, nem raciocínios que se sustentem...