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A epidemia e a população desamparada
A Gripe Hespanhola – como foi chamada na época – chegou ao Brasil em setembro de 1918, provavelmente a bordo do navio inglês Demerara, que havia saído de Liverpool e passado por Lisboa (Portugal) antes de cruzar o Atlântico. Por aqui, espalhou viajantes, marujos e a própria doença em três estados iniciais, a partir dos portos de Recife (PE), Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ); depois, em todo o território nacional, tanto por causa dos primeiros infectados quanto de outros navios, uma vez que seus tripulantes entravam em contato com o vírus nas paradas durante a viagem. Em Porto Alegre, os casos pioneiros chegaram na metade de outubro, a bordo dos barcos que faziam a linha de transporte entre a Capital e Rio Grande.
No dia 14 de setembro daquele ano, o vapor Itaquera, que havia sido rejeitado no Paraná e em Santa Catarina, chegou por aqui após uma “desinfecção” no porto rio-grandino. Nos dias seguintes, foram as vezes do Mercedes e do Itajubá, que carregavam marinheiros com suspeitas de estarem com o vírus influenza. Parecia inevitável que, com essa circulação, a gripe espanhola se tornasse uma realidade em breve. As primeiras notícias de que a doença estava de vez entre os porto-alegrenses começaram a correr em 18 de outubro de 1918.
Como em outros lugares do mundo, a epidemia tomou o país de assalto muito rapidamente, de ______ do mapa. A alta mortalidade pegou a todos de surpresa, mesmo com os relatos horríveis que já vinham do exterior desde o início do ano; muitos até duvidaram inicialmente que se tratasse de uma variedade da gripe que a medicina – mesmo com as limitações da época – conhecia tão bem.
Um dos casos mais famosos aconteceu no Rio de Janeiro, então capital federal, onde a gripe espanhola chegou ao presidente eleito do Brasil. Acamado em função da doença, Rodrigues Alves não conseguiu tomar posse em 15 de novembro de 1918 e acabou falecendo dois meses mais tarde, como consequência das complicações. Ele, que já havia governado o país entre 1902 e 1906, teria se tornado o primeiro presidente com dois mandatos na história da República. Em vez disso, foi brevemente substituído pelo vice, Delfim Moreira, até que se convocassem novas eleições.
Se nem o mandatário máximo do país estava a salvo da epidemia, para a população em geral as perspectivas eram ainda menos animadoras. A organização sanitária, na época, era quase inexistente: o primeiro Ministério dedicado _____ saúde só surgiria em 1930, e o Sistema Único de Saúde (SUS) estava a sete décadas de distância de se tornar uma realidade, algo que só ocorreria em 1988. Os hospitais eram poucos e inacessíveis _____ grande parte da população, e os investimentos em geral eram reduzidos: o orçamento gaúcho da época, por exemplo, dedicava apenas 2,5% dos investimentos _____ saúde pública. Hoje, por exigências constitucionais, o valor deve corresponder a 12% da receita corrente líquida, um valor que, em 2019, equivalia a R$ 4,1 bilhões. “Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para o outro, todo mundo começou a morrer”, escreveria, anos depois, o dramaturgo Nelson Rodrigues, que tinha seis anos na época da crise.
Assinale a alternativa que melhor justifica a expressão “população desamparada” do título do texto.