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Nina Horta, a amizade que não tive
Que seja, agora, o início.
Olhávamos para trás, em espiadas e recolhidas rápidas, sucedidas por acessos de riso.
Um esticava o pescoço pelo corredor, outro espiava ajoelhado por cima da poltrona, como numa
trincheira. Era o Pelé, e estava ___ bordo.
Tinha, quem sabe, uns 9 anos de idade e a distância do voo era longa demais para
segurarmos por tanto tempo um pedido de autógrafo. Depois de um longo debate, meus irmãos
tomaram coragem. Não conseguiria e teimei que não queria.
Foram arrastando os pezinhos, como quem tem medo de se arrepender, e eu não
conseguia sequer assistir.
Então vem minha irmã com um sorriso sapeca e diz: pedi pra você também. Surpresa,
notei que minha foto tinha a dedicatória mais linda, e ainda um coração exclusivo, que tomei
como prêmio pela timidez.
Não vim com esse gene, o da tietagem. Meus heróis sempre foram privados e os celebrava
do meu jeito, sem forçar a entrada. Ou quase...
Um dia, em 2012, tomei coragem e pedi amizade a Nina Horta, no Facebook e... ela
aceitou. Foi a maior ousadia que já fiz, seguida da vergonha tenebrosa de achar que havia
cruzado uma fronteira proibida, pela qual seria julgada. Levei séculos para comentar um post.
Eram os passinhos hesitantes dos meus irmãos em direção a Pelé.
Não, não fui “amiga” de Nina. Nem me permiti. Como alcançar __quilo tudo, tão
completo? Sovava cultura e filosofia na crônica, entre receita e outra, sem causar indigestão.
Aquela coisa de gênios, que nos explicam a vida como se tivéssemos 6 anos de idade.
Seus textos descartavam o mundaréu de informações irrelevantes, de afetações ridículas
da gastronomia de hoje e assentavam no essencial: no sabor sem blá-blá-blá, na receita com
resultado feliz, no momento de coisas, cheiros, texturas, gulodices e pequenas alegrias. Nunca
elevou a gastronomia a um plano celeste, talvez porque — imensa que era — a mirasse lá das
alturas.
Ao longo desses anos, recebi muitas palavras carinhosas de Nina, que nem cabe contar.
Não era amizade, mas generosidade, e me bastava que reconhecesse minha existência.
Encontramo-nos finalmente só no ano passado — depois de anos de troca de pequenas
mensagens, casos contados ___ distância e meu excesso de cerimônia — numa noite perfeita
na sala de sua casa, que se expandiu para acomodar os gigantes: Luiz e Nina, os Hortas. De
estilos tão diferentes e parentesco só no talento, sempre vibraram no mesmo tom e fizeram
menos do dom. Luiz, com o melhor texto de vinhos do planeta, e Nina, com o de comida. E o
assunto os encontrou por acaso, porque tenho absoluta certeza de que, se decidissem escrever
sobre próteses dentárias, haveria fila na sala de espera.
Na semana passada, vi um grupo de adolescentes, incluindo minha filha, dar chiliques e
faniquitos, gritando o nome dos Black Eyed Peas. Sorte delas, que externam tudo. Eu fico aqui
entalada, com todos os elogios que devia ter feito, com abraços contidos em camisa de força PP,
com as perguntas que travei, mordendo a língua.
Só me resta aproveitar a camisa de força imaginária e assumir de vez a loucura,
conversando com a Nina da minha cabeça, animadamente e sem reservas, em grandes papos
de anjo.
Cristiana Beltrão – Revista Época – 13/10/2019 – Disponível em época.globo.com - adaptação
Considerando o trecho a seguir: “Meus heróis (1) sempre foram privados (2) e (3) os (4) celebrava do meu jeito (5)”, assinale a alternativa cuja numeração equivalha a um termo que exerça a função de objeto direto.