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Dylan, o Nobel e a questão dos gêneros literários
José Ruy Lozano e Flora Bender Garcia
Muitos afirmam que a seleta banca responsável pela eleição de um músico norte-americano, Bob Dylan, para receber a lauda máxima da Academia Sueca na categoria literatura está se ajustando ao tempo. Estaria ela buscando aceitar a ideia de que os gêneros literários extrapolam a milenar divisão aristotélica: lirismo, drama e epopeia. A leitura da Poética, de Aristóteles, é conclusiva em uma divisão estrita entre música e literatura – esta seria “a arte que se utiliza apenas de palavras, sem ritmo ou metrificadas”, diferente daquela, produzida por “citareiros” e “flauteiros”.
A produção literária ao longo do tempo, no entanto, não se restringiu aos limites estabelecidos pelo filósofo. São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos. Tanto as epopeias eram cantadas pelos aedos quanto os poemas líricos eram acompanhados de instrumento. Aliás, recorde-se aqui a origem do termo lírico, do latim (lyricu) “lira”, um instrumento musical. Em alemão, “das lied” tanto significa poema lírico quanto canção. Nas cantigas trovadorescas, anteriores ao Humanismo, não se dissociam poema e música.
Suponhamos que alguma divisão seja, de fato, essencial. Separemos, pois, as letras das canções do suporte musical. Os menestréis do Trovadorismo eram acompanhados de instrumentos; os textos verbais das cantigas, compostos por trovadores. Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel. Segundo a crítica, não é um instrumentista nem um cantor à altura de prêmios. É, entretanto, um grande compositor e, principalmente, letrista. Resta saber se suas letras sobrevivem – enquanto produção com palavras – sem o canto. Caso a resposta seja sim, passariam à categoria de poemas, mas… Seria mesmo necessária a divisão?
Atualizemos a discussão. Os poetas concretos, a partir dos anos 50 do século passado, não usavam unicamente a folha de papel como suporte. Podiam colocar seus textos em esculturas, quadros, filmes ou outdoors. E hoje temos a cibercultura, que inclui a ciberliteratura. Nas nuvens e em suportes digitais, o texto verbal deixa de ser literário?
À guisa de conclusão, fiquemos com as palavras de Ezra Pound, em seu ABC da Literatura: “literatura é a linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”. Pode-se afirmar que, em sua carreira, Bob Dylan foi um transgressor não só pela literatura que curtia, incluindo a geração beat, os outsiders, mas também pelas abordagens viscerais que fez e faz em suas composições. Suas canções são, sem sombra de dúvida, linguagem carregada de sentido.
Assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas das linhas 04, 05, 10 e 18.