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Quem assistiu ao filme Paraíso, de Mariana Chenillo, sabe o que o escritor Michael Pollan* quer dizer quando analisa a diferença entre comer comida e comer nutrientes na sociedade atual. Meio drama, meio comédia, o filme é um retrato bem-acabado das ansiedades do nosso tempo. Conta a história de um casal – Alfredo e Carmen – que vive de fato no paraíso até resolver se mudar para a cidade grande e se deparar com uma espécie de pecado original. Até ali, um parece feito para o outro: são companheiros, saem para dançar, têm uma vida sexual ativa, compartilham os mesmos hábitos e gostos e chamam um ao outro de Gordo e Gorda. Isso não parece ser um problema até conhecerem, em uma festa, os novos amigos da nova empresa de Alfredo, um banco sediado na Cidade do México. No evento, Carmen depara-se com outro tipo de etiqueta: as mulheres são magérrimas, usam sempre vestido escuro (o dela é azul), têm cabelos longos e lisos e cravam o chão com sapatos de salto agulha como se andassem sobre algodão. Quando entra no banheiro, ela ouve a conversa entre duas colegas do marido, que juram ter sentido nojo ao ver o tamanho do casal. Ao testemunhar o diálogo, Carmen descobre o horror. Passa a não sair mais de casa e desenvolve uma obsessão pelo próprio peso, alvo de fuxico e rejeição no novo círculo social. Mergulha assim em um mercado patrulheiro do peso, adepto de táticas motivacionais que transformam as metas de emagrecimento em uma questão moral. No mundo contemporâneo, mostra a cineasta, o peso e a relação com a comida são duas entre outras tantas métricas criadas para dividir a humanidade entre vencedores e vencidos. Em casa, Carmen tenta implementar novos hábitos alimentares. E convence o marido a acompanhá-la no sacrifício. Ele reluta, mas aceita e se empolga. Resultado: ele emagrece, ela não. E quanto menos ela emagrece, mais se culpa, mais se angustia, mais se esconde... e mais ela come. A mudança de hábitos provoca estragos consideráveis naquela casa. Ao deixar de sentar na mesma mesa e compartilhar os mesmos alimentos, o casal passa a se distanciar, a falar outra língua e a criar áreas de atrito até então inexistentes. O filme, de alguma maneira, mostra que o prato levado à mesa não é só um prato: é uma espécie de catalisador das dores ou das delícias ao redor. Em nosso círculo social é preciso, como na música, saber da piscina, da margarina, da carolina, da gasolina; é preciso saber inglês**, o que sabemos e o que não sabemos mais. E é preciso calcular níveis de nutrientes e antioxidantes e entrar numa espiral de paranoia para ter uma vida amarrada e... saudável. Saudável? Sim, em nome desse conceito e de um peso dito ideal, tão autoritário quanto inalcançável, muitos aceitam praticar um exercício de automutilação cada vez mais comum. Tomamos comprimidos para não sentir fome, shakes emagrecedores para substituir a refeição e nos entupimos de porcariazinhas sem gosto ao longo dos dias para não chegar em casa com a tentação de subir ao paraíso pelo garfo de espaguete. Em sua passagem ao Brasil, Michael Pollan concedeu uma série de entrevistas a respeito da nossa relação com os alimentos, tema de seu mais recente livro. Em uma delas, o escritor americano fez uma série de alertas sobre nossa “compreensão superficial” da comida, hoje relacionada a combustível, energia ou entretenimento – e sobre a qual as receitas de sucesso do momento criam relação direta com o tempo (“Cozinhe em cinco minutos”, “Perca 5kg em dois dias”, etc). Uma aparente contradição destes tempos, defende o autor, é que as dietas da moda são incentivadas pela própria indústria alimentícia, que usa promessas de benefícios para a saúde e, no fim, nos leva a comer cada vez mais. Isso só demonstra uma coisa: no meio da patrulha, ficamos simplesmente alienados em relação ao que comemos, ao modo como comemos e ao impacto que esse modo produz nas nossas relações sociais, como mostra o filme de Mariana Chenillo.
Em relação a aspectos fonéticos de vocábulos do texto foram feitas as seguintes considerações.
I. Em fuxico, sexual e exercício há uma letra que representa fonemas diferentes.
II. Em peso, promessa e rejeição há letras diferentes representando o mesmo fonema.
III. Em alvo, atual e salto, a letra l costuma ser pronunciada como semivogal u.
IV. Em hábito e magérrima há mais letras do que fonemas.
Quais estão corretas?